Em 1962, Tom Jobim compôs o "Samba do Avião". A canção é a voz de quem chega ao Rio pelo alto. Da janela, a cidade vai se abrindo, a Baía de Guanabara aparece, e o que se sente é a alegria de estar chegando. Há encanto, e a surpresa boa de ver de perto algo que se esperava havia muito tempo.
Depois de percorrer cerca de metade dos núcleos do país (Acre, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Bahia, Rio Grande do Norte, Tocantins e Goiás), cheguei ao Rio de Janeiro quase por acaso. A visita a Belo Horizonte foi cancelada num domingo, às onze da manhã, e a nova passagem precisava ser emitida até o dia 30, último dia para usar o recurso. Faltava visitar algum estado do Sudeste. São Paulo não aderiu à Rede, e o Espírito Santo aderiu, mas não solicitou núcleo. Restava o Rio. Como no samba de Jobim, foi a chegada de quem vê a cidade se abrir aos poucos e se deixa surpreender. Pela primeira vez, o Núcleo não estava numa sede, num prédio à parte ou num lugar escondido. Estava dentro de uma escola de ensino médio em pleno funcionamento, o Colégio Estadual João Alfredo, em Vila Isabel. Ali, o painel da entrada foi pintado pelos alunos, e as alunas contam o que a escola mudou em suas vidas. O encanto da chegada não esconde as dificuldades do território. Mas marca o que, para a cartografia, é o principal acontecimento deste campo: fui afetado por algo que nenhum núcleo visitado antes havia mostrado. E, na cartografia, ser afetado não é um desvio do método. É parte dele (Favret-Saada, 2005; Passos; Kastrup; Escóssia, 2009).
Fui afetado duplamente. Primeiro pelo Núcleo estar instalado em uma escola de ensino médio. Segundo pelo diálogo tão envolvente, alegre e cheio de esperança com três alunas e que já tiveram a experiência de utilizarem o Núcleo.
O dia começou na Secretaria de Estado de Educação, com a equipe de gestão do Núcleo, e terminou no colégio, com a direção e com estudantes que já passaram pelo estúdio. Encontrei uma equipe pequena, formada por professores da rede, que divide o tempo entre a Secretaria e o Núcleo e que trabalha com planejamento e muita comunicação. Também encontrei uma trajetória marcada por interrupções. As trocas de gestão mudaram planos, adiaram projetos e deixaram as equipes em situação provisória. Mesmo assim, o Núcleo seguiu funcionando.
A escolha do colégio nasceu de uma limitação. Mas, aos meus olhos, virou uma escolha cheia de sentido. A Resolução CNE/CEB nº 2/2024 fala da educação híbrida como ampliação dos tempos e dos espaços de aprendizagem. No Rio, essa ampliação começa pela porta do colégio. O Núcleo está perto de quem aprende, e os estudantes deixam de ser apenas o público dos materiais para se tornarem também autores. A equipe faz questão de dizer que ali não há um estúdio de audiovisual, mas um espaço para o fomento da educação híbrida. A produção segue essa direção, com séries que dão voz a estudantes e professores, mostram realidades pouco conhecidas da própria rede e compartilham práticas de sala de aula.
Fernanda Abreu já cantou, em "Rio 40 graus", que o Rio é feito de muitas cidades misturadas numa só. Ouvi essa ideia de diferentes maneiras ao longo do dia. A capital, a serra, a Baixada e o litoral são Rios diferentes, e as distâncias entre eles não são só geográficas. Há estudantes que atravessam a região metropolitana todos os dias em busca de um ensino que não encontram perto de casa. Quem é de fora costuma falar do Rio como se fosse uma cidade só. Não é. E talvez esteja aí uma das tarefas mais bonitas que um Núcleo pode assumir: mostrar ao país as cidades que cabem dentro do Rio.
No colégio, a direção vê o Núcleo como um reconhecimento do engajamento que já existia e como um celeiro de possibilidades. A convivência funciona porque há diálogo entre a equipe do Núcleo e a escola que a recebe. Mas foram as alunas que me afetaram. Elas falaram do que o colégio mudou em suas vidas com palavras simples, como esperança e superação. Contaram histórias de famílias que voltam a estudar junto com os filhos e mostraram, com orgulho, o painel que ajudaram a criar. Fiquei com a impressão de que, ali, o Núcleo não é um equipamento instalado num colégio. É mais uma porta que o colégio abre para quem já estava procurando.
Se eu tivesse que dizer o que este campo acrescenta à cartografia da Rede, diria que é a combinação de algumas coisas:
- a proximidade com quem aprende, que torna os estudantes autores, e não apenas público;
- uma convivência com o colégio construída com diálogo;
- uma produção que procura dar voz a quem a rede pouco escuta;
- e um planejamento que protege o trabalho quando as condições falham.
As linhas duras também estão lá (Passos; Kastrup; Escóssia, 2009). As trocas de governo cortam a linha do tempo. Há limites institucionais entre produzir materiais e formar professores. Falta equipamento para gravar fora do estúdio. A avaliação ainda se limita a dados de acesso. E, como em quase todos os lugares, a troca entre estados ainda não acontece. São as mesmas forças que tenho encontrado em territórios muito distantes entre si, e elas recolocam a pergunta que me acompanha desde o Acre: o que faz de uma rede uma rede nacional?
Saio do Rio com a sensação de quem chegou pelo alto e precisou descer ao chão para entender a cidade. Do avião, vê-se a Baía. Do colégio, veem-se as muitas cidades que cabem no Rio. O desafio que fica é levar essas cidades para fora do estado. Assim, o que se produz em Vila Isabel pode chegar a uma sala de aula em Alagoas, e o caminho inverso também pode acontecer.
As entrevistas do dia já foram transcritas e se juntam ao acervo da pesquisa. Na próxima semana, estaremos com coordenadores dos núcleos de todo o país, e levo comigo o recado das alunas: façam mais.
Seguimos cartografando, pelo alto, como no samba de Jobim...
E pelo chão, como quem atravessa a cidade para chegar ao colégio...
Referências
ABREU, Fernanda; FAWCETT, Fausto; LAUFER, Carlos. Rio 40 graus. Intérprete: Fernanda Abreu. In: ABREU, Fernanda. SLA 2 Be Sample. Rio de Janeiro: EMI, 1992. 1 CD.
BRASIL. Ministério da Educação. Conselho Nacional de Educação. Câmara de Educação Básica. Resolução CNE/CEB nº 2, de 13 de novembro de 2024. Institui as Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Médio. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, 14 nov. 2024.
BRASIL. Ministério da Educação. Portaria nº 865, de 8 de novembro de 2022. Institui a Rede de Inovação para a Educação Híbrida. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, 10 nov. 2022.
FAVRET-SAADA, Jeanne. Ser afetado. Tradução de Paula Siqueira. Cadernos de Campo, São Paulo, n. 13, p. 155-161, 2005.
JOBIM, Antonio Carlos. Samba do avião. 1962. Canção.
PASSOS, E.; KASTRUP, V.; ESCÓSSIA, L. (org.). Pistas do método da cartografia: pesquisa-intervenção e produção de subjetividade. Porto Alegre: Sulina, 2009.

Nenhum comentário:
Postar um comentário