Sextou e hoje trago aqui as reflexões desta semana para este diário da pesquisa.
Nesta semana, um elemento esteve muito presente nas minhas reflexões: a cartografia como ponte. Ele não surgiu nas visitas aos núcleos, mas nas reuniões de orientação, e acabou me devolvendo ao coração do projeto: o que entendemos por educação híbrida.
Enquanto uma das doutorandas que oriento percorre os Núcleos de Inovação para a Educação Híbrida (na semana passada esteve em Palmas e, nesta, segue em Natal) permaneci por aqui. Usei estes dias para acompanhar os relatos que chegam das visitas, ler textos em construção, reunir-me com orientandos e discutir com eles os rumos de suas pesquisas.
Poderia parecer que a cartografia do projeto entrou em pausa. Não entrou. Cartografar não acontece apenas quando estamos fisicamente no campo; acontece também no acompanhamento dos processos, nas conversas, naquilo que nos afeta e nos desloca. O campo, desta vez, chegou até mim pela voz e pela escrita de quem pesquisa comigo.
Nas reuniões, fui percebendo algo que se repetia de diferentes modos: a cartografia tem servido, também, como uma ponte para outras metodologias. Ela não fecha a pesquisa em um desenho único; abre passagens.
A postura cartográfica pede que acompanhemos processos, em vez de representar objetos. Pede atenção ao que emerge e aceita que as metas sejam traçadas no próprio percurso, como indicam Passos e Barros (2009). Ao mapear o campo, quem pesquisa começa a enxergar de que mais precisa para compreendê-lo.
Às vezes, o mapeamento inicial pede o aprofundamento de um caso específico. Em outras, os registros dos diários de campo pedem uma análise textual mais sistemática, com apoio de softwares como o Iramuteq ou o Atlas.ti. Há ainda situações em que a necessidade de dimensionar o fenômeno conduz aos dados quantitativos, compondo um desenho de métodos mistos.
Uma ponte não é lugar de chegada, nem de permanência. Ela liga margens e permite atravessar. A cartografia não substitui outras metodologias nem é substituída por elas: cria conexões, num movimento rizomático, como pensaram Deleuze e Guattari (1995).
Daí recordamos que metodologia nunca é o primeiro passo! Há algo que preciso frisar, porque reaparece com frequência nas orientações: a escolha de uma metodologia nunca é o primeiro passo. Não se começa uma pesquisa dizendo "vou fazer uma cartografia", "vou fazer um estudo de caso" ou "vou aplicar um questionário".
Em uma pesquisa, partimos sempre da inquietação com a realidade. Algo nos incomoda, nos intriga, não se encaixa. É dessa inquietação que nasce a problematização: o trabalho de transformar o incômodo em pergunta, situá-la, reconhecer o que já se sabe e o que ainda falta compreender.
Só depois a metodologia ganha sentido, como caminho coerente com aquilo que se quer compreender. A cartografia inverte a lógica do metá-hódos e propõe o primado do caminhar. Mas essa inversão não autoriza começar pelo método; ao contrário, reforça que o caminho só se traça a partir do encontro com uma realidade que nos interroga.
Talvez por isso a cartografia funcione tão bem como ponte. Quando a pesquisa nasce de uma inquietação genuína, o próprio problema vai indicando as passagens necessárias, e o método deixa de ser uma camisa de força para se tornar um modo de acompanhar.
Foi nesse ponto que a reflexão me levou de volta ao objeto do projeto. Pensar a cartografia como ponte tem me ajudado a compreender melhor o próprio conceito de educação híbrida e o modo como ele se materializa nas redes.
No projeto, assumimos a definição das Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Médio (Resolução CNE/CEB nº 2/2024): a combinação e/ou integração de atividades presenciais e não presenciais, mediadas pelo planejamento e pela ação docente, visando à inovação e à ampliação de tempos e espaços. A palavra que mais me interpela ali é integração.
Há uma leitura recorrente, e equivocada, que entende o híbrido como soma: uma parte presencial mais uma parte on-line. Assim como a cartografia não é a justaposição de métodos, a educação híbrida não é a justaposição de modalidades. O híbrido acontece na passagem, na articulação, no fluxo entre tempos e espaços que se afetam mutuamente.
O olhar cartográfico também revela que a educação híbrida não se materializa como um modelo pronto a ser aplicado. Ela se faz em processo, de forma singular em cada rede. Nos núcleos, é possível perceber as linhas duras (normativas, infraestrutura, conectividade), as linhas flexíveis (as adaptações que gestores e docentes vão criando) e as linhas de fuga (práticas que inventam outros modos de ensinar e aprender).
E há algo quase metalinguístico nesta semana. A própria pesquisa está acontecendo de forma híbrida: a doutoranda presencialmente nos núcleos, eu acompanhando de Maceió, os diários de campo circulando em ambientes digitais, as reuniões alternando sala e tela. Não é a soma desses espaços que produz a pesquisa, mas a ponte entre eles.
Essa reflexão também ilumina o desenho do projeto de cartografia da RIEH. Desde o início, assumimos uma abordagem de método misto, articulando o acompanhamento qualitativo dos processos com os indicadores reunidos pelo Observatório. Ali, a cartografia já operava como ponte entre o que se mede e o que se vive, de modo análogo ao que o híbrido propõe entre o presencial e o não presencial.
As visitas a Palmas e Natal reforçam isso. Cada núcleo constrói seu plano de educação híbrida a partir de seu contexto, e nenhum roteiro prévio daria conta dessa multiplicidade. O que a doutoranda traz de lá vai pedindo novas leituras e, por vezes, novas ferramentas de análise.
A ponte, afinal, não liga apenas metodologias. Liga pessoas: orientador e orientandos, universidade e redes públicas, quem está no campo e quem acompanha à distância. Na próxima semana, com o retorno de Natal, seguiremos lendo juntos os diários de campo e redesenhando os mapas.
E você, que também pesquisa ou vive a educação híbrida no cotidiano da escola: que pontes têm sido possíveis no seu percurso?
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