segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Quando o registro do pesquisador passa a habitar o território

Diário de bordo. 05 de outubro de 2026, 12h16. Notas cartográficas sobre a visita ao NIEHMS e a educação híbrida em movimento

Recebi hoje uma mensagem da coordenação do Núcleo de Inovação para a Educação Híbrida de Mato Grosso do Sul (NIEHMS). O vídeo que gravei durante a visita ao Núcleo, em agosto, agora faz parte do curso de formação dos professores da rede estadual. É uma mensagem curta, dirigida aos professores da educação básica de MS, gravada no estúdio do próprio Núcleo, diante da tela com a identidade visual do NIEHMS.


Poderia tratar a notícia apenas como uma alegria pessoal, e ela é. Mas, como pesquisador que acompanha a Rede de Inovação para a Educação Híbrida pela perspectiva cartográfica, ela me obriga a pensar em duas direções que se cruzam: o que acontece quando o registro de quem pesquisa passa a habitar o território pesquisado, e o que esse pequeno acontecimento revela sobre a própria educação híbrida que estamos estudando.

Na tradição da cartografia como método, Passos e Barros (2009) propõem uma inversão que considero decisiva para a pesquisa em educação: em vez de conhecer para transformar, trata-se de transformar para conhecer. Toda pesquisa intervém. Conhecimento e ação não estão separados, e pesquisador e campo se produzem juntos. A neutralidade é uma ficção metodológica; o que existe é implicação.

A intervenção nem sempre é planejada. Pode ser intencional, quando o pesquisador organiza uma oficina, propõe uma roda de conversa ou devolve dados ao grupo. Mas pode também ser espontânea, quando nasce do encontro e não de um roteiro. Foi o que aconteceu em Campo Grande. Eu estava lá para acompanhar processos, conversar com a equipe, conhecer as práticas e a estrutura do Núcleo. No meio da visita, veio o convite: gravar uma mensagem para os professores da rede. Não estava previsto, não constava de nenhum instrumento de coleta. E, ainda assim, talvez seja um dos dados mais potentes que a visita produziu.

O convite também é um dado a ser analisado, pois do ponto de vista cartográfico, o convite em si já diz muito. Ele revela que o Núcleo não percebe o pesquisador apenas como alguém que observa e leva informações embora, mas como alguém que pode compor com a rede. Revela também algo sobre como o NIEHMS entende a formação docente: um espaço aberto a múltiplas vozes, construído em diálogo, e não um pacote fechado.

Kastrup e Passos (2013) falam da cartografia como a construção de um plano comum, em que pesquisador e participantes deixam de ocupar posições rígidas de sujeito e objeto. O vídeo é a materialidade desse plano comum. Ele não é meu nem do Núcleo isoladamente; existe porque houve um encontro, e agora circula num lugar que eu não controlo: o percurso formativo de professores que talvez eu nunca conheça pessoalmente.

Não sei se você percebe, querido leitor(a), mas a educação híbrida acontecendo diante de nós. É aqui que a reflexão sobre a intervenção encontra o conceito que estamos investigando. Na pesquisa, adotamos a definição de educação híbrida presente nas Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Médio:

educação híbrida: é a combinação e/ou integração de atividades pedagógicas, por meio de educação presencial no espaço físico escolar e não presencial, mediadas pelo planejamento e ação docente, com suporte nas tecnologias digitais de informação e comunicação e ambientes on-line, que visam a inovação e ampliação de tempos e espaços no processo educativo, com organização curricular e de planejamento compatíveis. (Brasil, 2024)

Lida rapidamente, essa definição pode sugerir uma simples soma: um pouco de presencial, um pouco de on-line. Mas o que vi no NIEHMS, e o que esse vídeo materializa, mostra que o híbrido é menos uma divisão de cargas horárias e mais uma reconfiguração de presenças. Uma fala gravada presencialmente, num estúdio físico, em um dia de agosto, torna-se presença não presencial em um curso on-line, encontrando professores em outros tempos, outros lugares, outras condições de escuta. O encontro de um dia se desdobra em muitos encontros possíveis. É exatamente a "ampliação de tempos e espaços" de que fala o texto normativo, só que vivida, e não apenas prescrita.

Há ainda um elemento da definição que me parece essencial e que o caso evidencia: a mediação pelo planejamento e pela ação docente. O vídeo não entrou no curso por acaso. Alguém, na equipe do Núcleo, decidiu que aquela mensagem fazia sentido para aquela formação, situou-a num percurso, deu-lhe intencionalidade pedagógica. O híbrido não é a tecnologia que grava e transmite; é o gesto de quem planeja e articula. Sem esse gesto, teríamos apenas um arquivo de vídeo.

O que mais me provoca, porém, é perceber que a educação híbrida, quando ganha corpo nos Núcleos, começa a escapar dos contornos instituídos. A análise institucional, que dialoga de perto com a cartografia, ajuda a pensar essa tensão entre o instituído, aquilo que já está estabelecido e normatizado, e o instituinte, as forças que produzem novas formas (Lourau, 2004). A Portaria que criou a RIEH, a Lei da PNED e as DCNEM compõem o plano instituído: definem, orientam, dão legitimidade. Mas o que acontece nos Núcleos não cabe inteiramente nos documentos.

Um estúdio dentro de uma secretaria de educação, produzindo materiais para a formação de professores, já é uma escola expandida, que não coincide com o prédio nem com a sala de aula. Um pesquisador de outra universidade, de outro estado, convidado a falar diretamente aos professores de uma rede que não é a sua, borra as fronteiras entre quem pesquisa, quem forma e quem é formado. Um material gravado para um momento migra para outro uso, ganha outra função, é reapropriado. Nada disso estava desenhado de antemão, e tudo isso é educação híbrida acontecendo.

Talvez seja esse o deslocamento mais importante que a cartografia nos permite perceber: o conceito de educação híbrida não está apenas sendo aplicado nas redes, está sendo produzido por elas. Os Núcleos não são somente lugares onde uma política é executada; são lugares onde o próprio conceito ganha densidade, contornos novos, linhas de fuga. Schlemmer, Morgado e Moreira (2020) falam do habitar do ensinar e do aprender em ecossistemas de inovação, e é isso que observo: o híbrido deixa de ser modalidade e passa a ser modo de habitar a educação, atravessando espaços físicos e digitais, instituições, papéis e tempos.

Deleuze e Guattari (1995) distinguem o mapa do decalque. Para os autores o decalque reproduz o que já está dado; o mapa é aberto, conectável, sempre passível de novas entradas. O pesquisador que faz decalque sai do campo levando uma cópia do que viu. O cartógrafo sabe que o próprio ato de mapear altera aquilo que se mapeia.

Meses depois da visita, o território se modificou, e parte dessa modificação passa por mim. Isso exige atenção ética e analítica. Ética, porque a presença do pesquisador produz efeitos que precisam ser reconhecidos e cuidados. Analítica, porque esses efeitos também são material de pesquisa: o que significa, para uma rede pública, incorporar à formação docente a voz de quem a acompanha academicamente? Que relações entre universidade, observatório e redes de ensino isso torna visíveis? Que novas configurações do híbrido emergem quando pesquisa e formação se entrelaçam?

Há ainda uma dimensão mais pessoal, que não quero esconder, porque a cartografia também não a esconde. Participar da construção da educação é permitir-se reinventar. Quando aceitei o convite, deixei por um instante o lugar de quem pergunta e assumi o lugar de quem fala aos professores. E, ao saber que aquela fala agora integra um curso de formação, percebo que também fui deslocado. Hoje habito, de forma não presencial, um espaço formativo em Mato Grosso do Sul. Eu mesmo me tornei parte do híbrido que pesquiso.

Esse é, talvez, o aprendizado mais importante desta etapa das visitas aos Núcleos: a educação híbrida que buscamos compreender não se faz apenas com tecnologias, plataformas e estúdios bem equipados, embora o NIEHMS os tenha. Ela se faz com encontros que ampliam tempos e espaços, com planejamento que dá sentido ao que circula, com a coragem de abrir a formação a outras vozes e com a disposição de todos, pesquisadores incluídos, de se deixar transformar no caminho.

Sigo acompanhando, e sendo acompanhado.

ps.: fotos dos bastidores no Instagram (@fernandoscpimentel)

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