Diário de pesquisa – Goiânia (GO), 29 de outubro de 2026
Já com mais de noventa anos, Cora Coralina contou numa entrevista que tinha se libertado de muitos medos, e um deles era o de viver "com a minha porta aberta". Gosto de ler essa frase da poeta goiana além do seu sentido literal. Ter a porta aberta é não ter medo de quem chega, é estar disponível, é receber o outro sem precisar ensaiar a casa. Foi exatamente isso que encontrei em Goiânia, no Dia do Servidor Público, quando visitei os dois Núcleos de Inovação para a Educação Híbrida da Secretaria de Estado da Educação de Goiás (Seduc-GO).
Nem sempre é assim. Ao longo da cartografia da Rede de Inovação para a Educação Híbrida (RIEH), já fui recebido de muitas maneiras. Há lugares em que a visita é vista como avaliação, e as respostas vêm medidas, quase ensaiadas. Há outros em que a porta se abre e a conversa flui. Goiânia foi um desses outros. A equipe entendeu a pesquisa como diálogo e as perguntas como contribuição ao próprio trabalho, inclusive quando tocavam em pontos sensíveis. Isso já diz muito sobre a forma como um Núcleo se coloca diante da rede que ele atende.
Conversei com a gestão, com a parte técnica e com uma professora que produz materiais no Núcleo. O que encontrei foi uma equipe comprometida, acolhedora e preparada, que junta experiências da educação e da comunicação e que não esconde as próprias dúvidas. A trajetória do Núcleo goiano tem algo de ousadia. Ele se fez com o que havia disponível, reorganizou pessoas e espaços já existentes e transformou limitações em arranjos de colaboração. Também me chamou atenção a lucidez de reconhecer que a fase da implantação, de espaço e equipamentos, ficou para trás, e que agora é a vez do pedagógico.
Mas o que mais me ajudou a compreender o potencial desse Núcleo foi perceber que ele não funciona como uma ilha. Há núcleos que existem como estúdio, um espaço bem equipado à espera de alguém que venha gravar. Em Goiânia, o Núcleo está costurado ao ecossistema do ensino médio. Ele se articula ao currículo, à recomposição das aprendizagens, à preparação para o Enem, aos itinerários formativos, à formação de professores e às plataformas da própria rede. E vai além da educação básica, porque é procurado por outras áreas do governo, que encontram ali uma estrutura e uma equipe dispostas a atender.
Se eu tivesse que dizer o que faz desse Núcleo um Núcleo de portas abertas, diria que é a combinação de algumas coisas:
- uma equipe que acolhe quem chega com uma proposta, seja professor, estudante ou outro setor do governo;
- uma produção amarrada ao currículo, o que evita que a inovação vire uma atividade solta;
- a acessibilidade e a inclusão tratadas como parte do modo de produzir, e não como acessório;
- a disposição de sair do estúdio e ir até onde a formação acontece; e
- a franqueza de reconhecer o que ainda não funciona.
A conversa com a professora trouxe a dimensão mais humana desse trabalho. Ouvi uma docente que vê na câmera uma forma de chegar mais longe, tanto aos estudantes quanto aos colegas professores, e que entende a educação híbrida como algo que está só começando. É o que a Resolução CNE/CEB nº 2/2024 indica ao definir a educação híbrida como mediada pelo planejamento e pela ação docente, e não pela tecnologia em si. O recado que ela deixou aos colegas foi o mesmo que senti ao longo do dia, dito com outras palavras: estar aberto para aprender o tempo todo.
Como toda cartografia, esta também registra as linhas duras que ainda travam o caminho (Passos; Kastrup; Escóssia, 2009). Elas apareceram sem defensividade. A Rede ainda é mais forte dentro de cada estado do que entre os estados. As plataformas convivem e às vezes se sobrepõem. Falta um modo de avaliar o impacto específico do Núcleo. O território é extenso. E a transição de governos que se aproxima traz incerteza sobre a continuidade das equipes. São as mesmas forças que tenho encontrado em territórios muito distantes entre si. A diferença é que, em Goiânia, elas foram ditas com a porta aberta. E reconhecer o problema já é uma forma de começar a enfrentá-lo.
Saio daqui com a impressão de que o potencial de cada Núcleo só pode ser lido a partir da sua realidade. Em Goiás, esse potencial está na inserção, no fato de o Núcleo funcionar como uma engrenagem de um sistema maior, e não como um apêndice dele. O desafio que fica, para a gestão da Rede e também para nós pesquisadores, é ajudar a abrir essa porta para fora de cada estado. Assim, o que se produz em Goiás pode chegar a Alagoas, ao Acre e a tantos outros lugares, e o caminho inverso também pode acontecer. Uma rede só existe quando as portas se abrem umas para as outras.
As entrevistas do dia já foram transcritas e se juntam ao acervo da pesquisa. Hoje o grupo reúne mais de 390 páginas de transcrições, que estão em análise. A próxima parada é o Rio de Janeiro.
Seguimos cartografando, e de portas abertas...
Abertas para o que cada território tem a nos ensinar sobre educação híbrida...
ps.: um detalhe... observe, caro leitor, que na foto da porta aberta do Núcleo encontramos teias de aranha, mas não são verdadeiras. O Núcleo estava todo ambientado com o tema de de halloween.
Referências
BRASIL. Ministério da Educação. Conselho Nacional de Educação. Câmara de Educação Básica. Resolução CNE/CEB nº 2, de 13 de novembro de 2024. Institui as Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Médio. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, 14 nov. 2024.
BRASIL. Ministério da Educação. Portaria nº 865, de 8 de novembro de 2022. Institui a Rede de Inovação para a Educação Híbrida. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, 10 nov. 2022.
PASSOS, E.; KASTRUP, V.; ESCÓSSIA, L. (org.). Pistas do método da cartografia: pesquisa-intervenção e produção de subjetividade. Porto Alegre: Sulina, 2009.

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