Diário de bordo · Pesquisa cartográfica · RIEH · 8 de agosto de 2026
Há uma pergunta que todo pesquisador cartógrafo enfrenta cedo ou tarde: e depois que a gente volta do campo, o que fazer com tudo aquilo? As entrevistas, os áudios, os diários, as percepções que cada pesquisador traz consigo... tudo isso precisa de um caminho até virar mapa. Neste registro de hoje, parte de nosso diário de campo, queremos abrir esse caminho para quem nos acompanha.
Nas últimas semanas, o grupo tem se dedicado a um procedimento de organização dos dados coletados nas visitas aos núcleos da RIEH. As entrevistas com gestores, técnicos, professores e as percepções que cada pesquisador registra durante e depois da visita têm sido recolhidas por meio de um formulário on-line, o que já nos ajuda a padronizar o que cada território nos devolve. Ao mesmo tempo, os áudios das entrevistas estão sendo transcritos e revisados, um a um, para que nenhuma fala se perca na travessia entre o campo e o mapa.
Depois de transcritos, os dados passam por um tratamento: primeiro viram arquivos em PDF, depois são convertidos para arquivos em Markdown, usando o CloudConvert. Pode parecer um detalhe técnico sem importância, mas não é, pois é esse formato mais simples e mais limpo que nos permite, no passo seguinte, sistematizar um volume grande de entrevistas e respostas sem perder de vista o que realmente importa: o que o campo disse.
E é aqui que a inteligência artificial entra no processo. Temos usado o Claude.com para nos ajudar a sistematizar os dados já tratados: organizar respostas por localização, cruzar entrevistas, apontar recorrências entre territórios que, de outra forma, levariam muito mais tempo para aparecer. A partir dessa sistematização, o mapa é reelaborado no Miro, onde as linhas (duras, maleáveis, de fuga) ganham corpo visual e podem ser manipuladas, comparadas, revistas.
Mas uma coisa precisa ficar dita com todas as letras, porque é o que garante o rigor de tudo isso: mesmo com o auxílio da IA, a última análise é sempre feita pelos pesquisadores. É a equipe que lê o que foi sistematizado, que decide se aquilo é mesmo uma linha dura ou uma maleável, que insere, ou não, a observação no mapa cartográfico. A inteligência artificial organiza, cruza, sugere. Quem cartografa continua sendo o pesquisador, com sua escuta, sua dúvida e seu afeto pelo campo.
Achamos importante compartilhar esse processo porque a cartografia, como método, não esconde seus bastidores, pelo contrário, ela os expõe como parte do próprio conhecimento produzido. Um mapa que não mostra como foi feito é um mapa que pede fé demais de quem o lê. E nós preferimos pedir companhia.
Seguimos organizando, seguimos cartografando. E vamos então observar o que achamos?