sábado, 19 de setembro de 2026

Fora da caixa: tempos e espaços da educação híbrida

Diário de bordo: São Luís do Maranhão, 07h48.


Hoje no registro deste diário de bordo da pesquisa quero começar com uma confissão. Durante a visita aos três Núcleos de Inovação para a Educação Híbrida instalados em São Luís, algo me intrigou: pela primeira vez, tive a ansiedade de começar a escrever antes de concluir as atividades da pesquisa. Tentei acalmar o coração e a mente, embora já tenha rabiscado as primeiras linhas dentro do próprio espaço dos Núcleos. A versão publicável, porém, só ficou pronta hoje, às vésperas da minha partida da cidade.

Talvez a pressa em escrever diga algo sobre a experiência. Nesta visita, busquei vivenciar a imersão no campo de pesquisa: sentir como a história, a arquitetura, a cultura, a culinária e o jeito de ser da população local interferem no cotidiano e no desenvolvimento das ações dos Núcleos. Vale deixar isso registrado.

A cartografia, como método de pesquisa, nos lembra que, antes de pesquisar uma comunidade, é preciso chegar devagar. Passos, Kastrup e Escóssia, em Pistas do método da cartografia, falam de acompanhar processos, e não de representar objetos. Suely Rolnik, em Cartografia sentimental, lembra que o cartógrafo mergulha nas intensidades do território e "come" o que lhe serve de alimento. Já Deleuze e Guattari, ao apresentarem o rizoma, dizem que o mapa é aberto, conectável e sempre em construção. Por isso escutamos histórias, caminhamos pelas ruas, provamos a comida, observamos os encontros e também os silêncios. A cultura de um lugar não está só em dados: ela pulsa nos gestos, nas memórias e nas relações que o habitam. 

Chegar a um campo de pesquisa, e mesmo o tempo que antecede essa chegada, é também um exercício de construção de confiança. Quem pesquisa pode parecer, a quem recebe, alguém que entra no espaço alheio para observar e seguir adiante, e reconhecer essa possibilidade é uma forma de respeito por quem nos abre a porta. Sade, Ferraz e Rocha (2013) lembram que confiar vem de con fiar, isto é, fiar com, tecer com o outro, e que a confiança não se decreta nem se resolve apenas com um termo assinado: ela pede tempo, escuta e convivência. Buscar construí-la nem sempre é simples ou fácil, mas é o que transforma o campo em lugar de encontro, e não de passagem. Estamos tendo essa experiência em cada momento da pesquisa 

Para entender como o Maranhão constrói seu conceito-prática de educação híbrida, foi preciso também compreender os 414 anos de história de sua capital. 

Na visita in loco ao espaço onde os Núcleos funcionam, e nas entrevistas realizadas, percebemos uma intencionalidade pedagógica na produção dos projetos. Um deles já existia antes dos Núcleos: um estúdio de gravação, ainda sem os equipamentos atuais e sem uma equipe tão organizada. Isso nos diz algo importante: a educação híbrida no Maranhão não começou com o Núcleo, nem com a norma. Ela vem sendo gestada na prática, em iniciativas que encontraram, depois, um lugar institucional para crescer.

É aqui que a experiência de campo tem nos ensinado mais. A Resolução CNE/CEB nº 2/2024 apresenta um conceito de educação híbrida que amplia os tempos e os espaços da aprendizagem. Mas o que temos percebido, nas andanças e visitas aos estados, é que essa ampliação ainda não se materializou. O que vemos nos Núcleos é a educação híbrida se constituindo no cotidiano, entre o que está previsto e o que é possível: nas escolhas de quem planeja, nas adaptações de cada professor, nas condições de acesso e conectividade, nas distâncias de um estado que é o segundo maior do Nordeste em extensão territorial. Os estúdios, a produção de conteúdo e a formação de professores são passos reais, e é assim que o conceito vai virando prática. Por isso falo em conceito-prática: o que está no papel e o que acontece de fato não são coisas separadas.

Ainda sentimos falta, porém, de um currículo que acompanhe essa ampliação. Nossa organização curricular continua muito "encaixotada": pensada para um tempo determinado e para um espaço determinado, a aula, a sala, a grade de horários. Enquanto isso não se desloca, a tecnologia corre o risco de apenas transportar a caixa de um lugar para outro. E essa ampliação ainda não é uma realidade em nenhum dos territórios que visitamos. Longe de ser crítica, é a constatação de que a norma abre um caminho que ainda está sendo percorrido, e de que cada território o percorre com os recursos, as histórias e os desafios que tem. Entender a educação híbrida "de fato constituída", e não apenas a prescrita, exige esse olhar de quem caminha junto. Encontramos, em São Luís, uma equipe dinâmica, organizada, afinada e comprometida com a aprendizagem dos estudantes, e isso faz diferença no modo como o conceito se materializa.

A partir de cada Núcleo que vamos visitando percebemos o quanto a inovação educacional vai brotando e exige novas dinâmicas, aprendizados, planejamentos, formações e políticas. Cada professor traz consigo suas experiências e sua capacidade de criar, de inovar, de se desalojar em busca de algo que promova aprendizagem. Vamos identificando igualmente o quanto o Brasil ainda precisa avançar em instrumentos capazes de acompanhar e verificar se as ações de fato promovem aprendizagem. Eventualmente, podemos até inferir que sim. Mas que dados e que evidências estamos produzindo ou coletando para auxiliar quem toma decisões? A política educacional de fato está cumprindo seu objetivo? Nossos estudantes estão de fato aprendendo? Aprendendo o que?

Sigamos avançando.
Obrigado Maranhão.

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

É tempo de travessia

 Postado originalmente no Instagram (@fernandoscpimentel)


Esta semana, uma postagem das Religiosas da Instrução Cristã bateu forte em meu coração. Talvez porque, em tempos de falar de travessia, de confiar e de seguir, eu tenha olhado para estes corredores de um jeito diferente.

Quantas histórias cabem nestes corredores… Aqui, passaram vidas, sonhos, encontros, despedidas. Aqui, pessoas fizeram suas próprias travessias, marcadas por este carisma que, de algum modo, também atravessou a minha história e a história da minha família.

Quantas vezes atravessei este corredor. Quantas vezes cheguei. Quantas vezes parti. Quantas vezes permaneci.

Hoje, porém, ao contemplar os sinais dos tempos e perceber o silêncio incomum neste corredor, algo dentro de mim também silencia. E, nesse silêncio, consigo escutar com mais clareza os apelos que o Senhor me faz.

É tempo de travessia. Tempo de seguir adiante. Tempo de deixar para trás o que precisa ser deixado. Tempo de confiar que, quando Deus chama, Ele também prepara o caminho. Tempo de ir aonde Ele me chama.

A Palavra nos lembra que há um tempo para cada coisa: tempo de chegar e tempo de partir, tempo de semear e tempo de colher. E talvez seja justamente isso que este momento me ensina: algumas travessias não significam esquecer o lugar de onde partimos. Significam levar conosco tudo aquilo que Deus nos permitiu viver.

Por isso, diante de tantos anos de história, só posso agradecer pela bondade de Deus nos 130 anos da chegada das Religiosas da Instrução Cristã ao Brasil e pelos 60 anos de presença em terras alagoanas, no Colégio Santa Madalena Sofia.
Agradecer pelas pessoas, pelos encontros, pelos ensinamentos, pelas sementes lançadas e por tudo aquilo que continuará florescendo.

E, olhando mais uma vez para este corredor, talvez eu compreenda que ele nunca foi apenas um lugar de passagem. Ele também foi caminho. Foi travessia. Foi parte da minha história. E agora, com o coração agradecido e a fé renovada, é tempo de seguir.

Porque, quando é o Senhor quem chama, a travessia também pode ser uma forma de dizer: “Eis-me aqui.”


sábado, 12 de setembro de 2026

Diário de bordo: o que a Educação Híbrida já nos ensinou sobre si mesma

 


Nos últimos posts, falei bastante sobre o como desta pesquisa: a cartografia, o diário de bordo, o cuidado de não fechar categorias antes de entrar em campo. Desta vez quero mudar o eixo da conversa. Não é sobre o método. É sobre o que o método já está deixando ver.

Já são oito estados visitados até este momento: Acre, Alagoas, Sergipe, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Bahia, Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Oito histórias diferentes, oito formas de tentar responder à mesma pergunta: o que fazemos, na prática, quando dizemos que estamos fazendo Educação Híbrida? E confesso que, a cada núcleo visitado, essa pergunta fica ao mesmo tempo mais rica e mais provocadora.

Um conceito que está sendo construído, não apenas aplicado

Em novembro de 2024, a Resolução CNE/CEB nº 2 deu ao Brasil algo raro em política educacional: uma definição legal clara de Educação Híbrida, como combinação de atividades presenciais e não presenciais mediadas pelo planejamento e pela ação docente. Isso é, por si só, uma conquista. Poucas vezes um conceito pedagógico tão discutido academicamente chega a um texto normativo com esse nível de precisão.

O que venho observando em campo é que esse conceito, tão bem amarrado no papel, ainda está vivo, em movimento, sendo negociado todos os dias dentro de cada núcleo. Em algumas conversas, ouvi um cuidado explícito em não confundir Educação Híbrida com curso autoinstrucional, justamente porque o que define o modelo é a mediação, a interação, a intencionalidade pedagógica por trás de cada escolha tecnológica. Em outras conversas, encontrei rotinas mais concentradas na produção de videoaulas e cadernos de recomposição, garantindo que o estudante ausente tenha acesso ao mesmo conteúdo da aula presencial.

Não vejo isso como contradição ou erro. Vejo como o retrato mais honesto possível de uma política pública ainda jovem, tentando se equilibrar entre uma diretriz nacional recém-publicada e oito realidades regionais profundamente diferentes entre si. E é exatamente por isso que pesquisar a RIEH agora é tão interessante: estamos observando um conceito sendo forjado em tempo real, com todo o potencial de aprendizado que isso carrega.

O que o campo já está me ensinando

Reúno aqui alguns aprendizados que considero mais consistentes até este momento da pesquisa, não pela quantidade de vezes que apareceram, mas pela distância entre os estados em que apareceram. Quando uma mesma ideia surge espontaneamente em núcleos tão distantes entre si, geográfica e culturalmente, isso costuma indicar algo estrutural, e não um acaso local. E cada um desses aprendizados, mais do que um problema a resolver, é um convite a pensar coletivamente o próximo passo da rede.

A intencionalidade pedagógica virou quase um consenso. Em praticamente todos os núcleos, alguém fez questão de dizer que tecnologia sem intenção pedagógica clara não é Educação Híbrida, é apenas usar um Chromebook. Esse é um sinal de maturidade conceitual que vale a pena celebrar: a rede já sabe, em grande medida, o que não quer ser. O passo seguinte, tão estimulante quanto o primeiro, é transformar esse consenso discursivo em prática cotidiana visível.

A infraestrutura já avançou bastante, e agora pede cuidado de continuidade. Vi núcleos com cortadora a laser e impressora 3D, sinal de investimento real em tecnologia educacional. O desafio que aparece a seguir, o de garantir insumos e manutenção contínua, é o desafio natural de quem já superou a etapa mais difícil, que é conseguir o equipamento. É um problema de segunda geração, e isso já é um progresso.

A distância territorial pede soluções criativas, e a rede já mostra sinais de estar pensando nisso. Num dos núcleos, ouvi que há regionais a mais de 1.200 quilômetros da capital. Em vez de ler isso apenas como limite, prefiro lê-lo como uma boa pista de onde a RIEH pode inovar de verdade: soluções descentralizadas, formação em múltiplas escalas, protagonismo regional dentro da própria rede nacional.

E aqui está a descoberta que mais me energizou a continuar essa pesquisa: o tema que mais se repete, atravessando praticamente todos os núcleos visitados, não é tecnológico. É humano. São as pessoas que sustentam esses núcleos todos os dias, muitas vezes jovens estagiários e bolsistas, com dedicação visível mesmo em condições de vínculo instável. Um núcleo comentou, com um misto de humor e cansaço, que lidar com equipe é um desafio compartilhado por toda a rede. Eu não esperava encontrar esse achado com esse peso quando comecei o desenho teórico da pesquisa. E é exatamente esse tipo de surpresa que faz valer a pena manter os olhos abertos em campo: às vezes o dado mais importante não é o que fomos procurar, é o que o campo insiste em nos mostrar.

O protagonismo estudantil já aparece, e tem espaço para crescer ainda mais. Estudantes conduzindo cerimônias, participando de podcasts, comentando aulas de forma espontânea e criativa (um comentário sobre reações químicas ao fazer chimarrão ainda me arranca um sorriso toda vez que releio a transcrição) mostram que a semente já está plantada. A pergunta que fica, animadora mais do que cobradora, é: como levar esse protagonismo que já existe em eventos pontuais para dentro da rotina de construção pedagógica do material?

A rede já sonha grande, e o próximo passo é destravar os últimos nós técnicos. Um dos núcleos relatou uma dificuldade pontual de cadastro que ainda impede que o material produzido ali alimente o repositório nacional. É um detalhe técnico, resolvível, dentro de um objetivo grande e já claramente formulado: fazer o que se produz em um estado circular por todos os outros. Ver esse objetivo tão bem articulado no discurso da rede é, por si, um bom sinal de para onde estamos indo.

Por que isso me deixa otimista quanto à consolidação da RIEH

Se a Rede de Inovação para a Educação Híbrida quer se consolidar, e tudo o que vejo em campo indica que ela quer e que já está a caminho disso, talvez o aprendizado mais valioso destas primeiras oito visitas seja este: os desafios que aparecem não são sinais de fragilidade, são sinais de que a política está viva, em uso real, sendo testada por gente de carne e osso em contextos muito diferentes. Isso é exatamente o que se espera de uma rede em consolidação, e é uma notícia boa.

Fico pensando se não é hora de olhar com mais carinho para um indicador que a literatura ainda não tinha colocado no centro do debate: quantas pessoas, com que vínculo, sustentam cada núcleo no dia seguinte. Não como uma cobrança, mas como um reconhecimento de que investir em gente é tão estratégico quanto investir em estúdio e em conectividade.

Sigo para os próximos núcleos com essa mesma curiosidade de quem sabe que o mapa ainda está sendo desenhado. Fica o convite para quem lê este blog: que outros sinais vocês têm percebido, nas suas próprias redes, sobre esse processo de amadurecimento da Educação Híbrida no Brasil? Tenho a sensação de que esta pesquisa só vai ficar mais rica na medida em que mais vozes entrarem nessa conversa.

Até o próximo registro.

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Cartografar sendo

Maceió, 11 de setembro de 2026, 10h47... Diário de bordo

Escrevo isso ainda com a poeira da estrada no corpo da última viagem. Outro Núcleo, outra sala, outras caras e, no entanto, uma sensação que insiste em se repetir a cada parada: a de que não chegamos a lugar nenhum de fora. Chegamos, sim, mas já misturados.


Kastrup e Passos (2013), quando falam da cartografia como método, insistem numa ideia que parece simples no papel e que só se entende de verdade no corpo, atravessando aeroporto, rodoviária, sala de reunião, roda de conversa: a de que pesquisador e campo não estão em planos separados. Não há um observador que sobrevoa e um objeto observado que fica lá, quietinho, esperando ser descrito. Há um plano comum, ou seja, um plano de composição onde as forças de quem cartografa e as forças do território pesquisado se atravessam, se afetam, se contaminam. Cartografar não é descrever uma paisagem da janela do avião. É pousar, descer, e deixar que a paisagem também nos desenhe.

Aquilo que já venho refletindo a algum tempo: afetar e deixar-se afetar.

O que a estrada tem nos ensinado é exatamente que cada Núcleo de Inovação para a Educação Híbrida que visitamos é um mundo particular, com sua história, seus atritos, suas alegrias e seus impasses. E é curioso perceber que aprendemos cartografia ali, no meio da roda, e não antes, num manual guardado na mochila. A formação do cartógrafo não é prévia ao campo. Ela acontece com o campo, na convivência, no compartilhamento de um café, no silêncio de quem ainda não sabe se pode confiar em nós, na pergunta que alguém faz e que desmancha uma certeza que trazíamos pronta.

Isso muda tudo. Muda, por exemplo, a pergunta que a gente se faz antes de entrar numa sala. Não é mais "o que vou observar aqui?", mas "o que vou me tornar, estando aqui?". Não é mais "o que este Núcleo é?", mas "o que estamos compondo, juntos, neste encontro?".

Cada vez fica mais claro que não falamos da RIEH. Somos RIEH enquanto cartografamos. É isso que temos percebido, viagem após viagem: não fazemos cartografia para falar da RIEH, como quem descreve algo de fora, com distância segura e linguagem técnica pronta. Fazemos cartografia sendo RIEH; entendendo a rede por dentro dela mesma, descobrindo o que ela é no próprio movimento de percorrê-la, fazendo-a se atualizar a cada Núcleo em que pousamos, a cada conversa em que nos deixamos afetar.

Isso talvez seja o mais difícil de explicar para quem espera de nós um relatório limpo, com categorias fechadas e conclusões definitivas. Porque o que vivemos é outra coisa: é formação em ato, é rede se fazendo enquanto a percorremos, é cartógrafo que também se transforma a cada Núcleo e que, por isso mesmo, chega ao próximo já um pouco diferente de quem chegou no anterior.

Por isso este texto é diário de bordo, e não relatório de viagem. Diário de bordo registra o movimento enquanto ele acontece, com suas dúvidas, seus tropeços, suas pequenas alegrias de reconhecimento. Relatório de viagem conta o que já passou, arrumado, com início, meio e fim.

O que temos vivido com os Núcleos de Inovação para a Educação Híbrida, Brasil afora, ainda não tem fim, porque não é uma coisa que observamos de fora terminar. É uma coisa que estamos, com outros, fazendo acontecer. E cartografar isso é, antes de tudo, aceitar entrar no plano comum: deixar-se afetar pela rede exatamente na medida em que ela também vai se afetando pela nossa presença ali.

Seguimos.

sábado, 5 de setembro de 2026

Cartografando o Núcleo de Inovação para a Educação Híbrida em Santa Catarina

Diário de bordo. Santa Catarina, 05 de setembro de 2026. 

Ontem estive em campo para continuidade ao processo de produção de dados da investigação. A visita de pesquisa ao Núcleo de Inovação para a Educação Híbrida, instalado na sede da Secretaria de Estado da Educação de Santa Catarina, em Florianópolis, marca mais um ponto neste mapa que venho traçando ao longo da pesquisa. Fui recebido de forma muito cordial pela equipe do Núcleo e por outros servidores da Secretaria, uma acolhida que, antes de qualquer análise, já diz algo sobre o modo como esse território vem sendo habitado.


Escrevo este registro ainda tentando decantar o que vi e ouvi, resistindo à tentação de nomear demasiado cedo. Numa pesquisa que se pretende cartográfica, a primeira armadilha é justamente essa: sobrepor ao território as categorias que o pesquisador já trazia consigo antes de entrar nele. Tento após cada visita, deliberadamente, não me colocar como o lugar de onde emanam os sentidos sobre rede ou sobre educação híbrida. O desafio é acompanhar o objeto a partir de seus próprios movimentos, e não fazer dele a ilustração de uma tese prévia. É um exercício de deslocamento constante, e friso, um exercício, porque a tentação de interpretar sempre espreita.

Uma evidência é constatado nesta visita: temos um território com articulações visíveis, e que já vimos em outros territórios. Os dados produzidos na visita, nas conversas, nas observações, no modo como a equipe narra seu próprio trabalho e nas entrevistas, revelam um esforço consistente de efetivação da Rede de Inovação. Não se trata de um desejo abstrato pois há, no território catarinense, uma articulação já significativa entre os atores que compõem essa rede internamente. As linhas que conectam o Núcleo às demais ações da Secretaria parecem relativamente consolidadas, ao menos naquilo que se deixou entrever no tempo da visita, principalmente na formação de professores.

O mesmo não se pode dizer, contudo, das linhas que se estendem para fora do estado. A relação com Núcleos de outras unidades da federação ainda aparece como um traço mais tênue no mapa, um segmento em aberto. Não é uma ausência a ser lida como falha, mas como um contorno ainda em formação, talvez o próprio desenho de uma rede nacional que se constrói de modo desigual, com territórios avançando em ritmos distintos.

Registro um ponto que atravessou as entrevistas merece registro cuidadoso: o desafio de sustentar uma proposta nacional (a RIEH) que nasce já com um horizonte temporal definido para o seu ciclo. Toda proposta ou estratégia que se organiza por meio de instrumentos com vigência delimitada carrega essa característica: um tempo de vida institucional que baliza o que pode ou não ser feito dentro dele. Mais do que um problema, isso me parece revelar uma condição estrutural de muitas políticas educacionais: a necessidade de produzir efeitos duradouros dentro de um intervalo que, por definição, é finito.

É nesse ponto que a pesquisa toca talvez o seu núcleo mais delicado: o desafio de elaborar e implantar uma política não é apenas técnico ou administrativo, mas cartográfico. Trata-se de compor, em tempo limitado, uma rede de relações que se pretende duradoura. Observar essa tensão, sem antecipar juízos sobre seu desfecho, é parte do trabalho de quem cartografa.

Volto, ao final do registro deste diário de bordo, à questão que abre o texto. Manter-se na posição de quem acompanha o objeto e não de quem o instrui sobre o que ele deveria ser, é um exercício de contenção... Bem difícil, confesso. As perspectivas etnográficas, que também venho aproximando deste percurso metodológico, ajudam nesse sentido: elas convocam a permanência, a escuta prolongada, a atenção ao vocabulário nativo antes da tradução conceitual. É instigante perceber como cartografia e etnografia, aqui, não se opõem, mas se atravessam. A primeira fornecendo o gesto de acompanhar processos e composições em movimento; a segunda, a disciplina de habitar o campo antes de nomeá-lo.

Fica registrada, portanto, mais esta pista do percurso: um território com articulações internas fortes, fronteiras externas ainda em construção, e uma política que aprende a se sustentar dentro do tempo que lhe foi dado. Obrigado, Santa Catarina. Obrigado equipe do Núcleo.

Até o próximo registro.