Ontem estive em campo para continuidade ao processo de produção de dados da investigação. A visita de pesquisa ao Núcleo de Inovação para a Educação Híbrida, instalado na sede da Secretaria de Estado da Educação de Santa Catarina, em Florianópolis, marca mais um ponto neste mapa que venho traçando ao longo da pesquisa. Fui recebido de forma muito cordial pela equipe do Núcleo e por outros servidores da Secretaria, uma acolhida que, antes de qualquer análise, já diz algo sobre o modo como esse território vem sendo habitado.
Escrevo este registro ainda tentando decantar o que vi e ouvi, resistindo à tentação de nomear demasiado cedo. Numa pesquisa que se pretende cartográfica, a primeira armadilha é justamente essa: sobrepor ao território as categorias que o pesquisador já trazia consigo antes de entrar nele. Tento após cada visita, deliberadamente, não me colocar como o lugar de onde emanam os sentidos sobre rede ou sobre educação híbrida. O desafio é acompanhar o objeto a partir de seus próprios movimentos, e não fazer dele a ilustração de uma tese prévia. É um exercício de deslocamento constante, e friso, um exercício, porque a tentação de interpretar sempre espreita.
Uma evidência é constatado nesta visita: temos um território com articulações visíveis, e que já vimos em outros territórios. Os dados produzidos na visita, nas conversas, nas observações, no modo como a equipe narra seu próprio trabalho e nas entrevistas, revelam um esforço consistente de efetivação da Rede de Inovação. Não se trata de um desejo abstrato pois há, no território catarinense, uma articulação já significativa entre os atores que compõem essa rede internamente. As linhas que conectam o Núcleo às demais ações da Secretaria parecem relativamente consolidadas, ao menos naquilo que se deixou entrever no tempo da visita, principalmente na formação de professores.
O mesmo não se pode dizer, contudo, das linhas que se estendem para fora do estado. A relação com Núcleos de outras unidades da federação ainda aparece como um traço mais tênue no mapa, um segmento em aberto. Não é uma ausência a ser lida como falha, mas como um contorno ainda em formação, talvez o próprio desenho de uma rede nacional que se constrói de modo desigual, com territórios avançando em ritmos distintos.
Registro um ponto que atravessou as entrevistas merece registro cuidadoso: o desafio de sustentar uma proposta nacional (a RIEH) que nasce já com um horizonte temporal definido para o seu ciclo. Toda proposta ou estratégia que se organiza por meio de instrumentos com vigência delimitada carrega essa característica: um tempo de vida institucional que baliza o que pode ou não ser feito dentro dele. Mais do que um problema, isso me parece revelar uma condição estrutural de muitas políticas educacionais: a necessidade de produzir efeitos duradouros dentro de um intervalo que, por definição, é finito.
É nesse ponto que a pesquisa toca talvez o seu núcleo mais delicado: o desafio de elaborar e implantar uma política não é apenas técnico ou administrativo, mas cartográfico. Trata-se de compor, em tempo limitado, uma rede de relações que se pretende duradoura. Observar essa tensão, sem antecipar juízos sobre seu desfecho, é parte do trabalho de quem cartografa.
Volto, ao final do registro deste diário de bordo, à questão que abre o texto. Manter-se na posição de quem acompanha o objeto e não de quem o instrui sobre o que ele deveria ser, é um exercício de contenção... Bem difícil, confesso. As perspectivas etnográficas, que também venho aproximando deste percurso metodológico, ajudam nesse sentido: elas convocam a permanência, a escuta prolongada, a atenção ao vocabulário nativo antes da tradução conceitual. É instigante perceber como cartografia e etnografia, aqui, não se opõem, mas se atravessam. A primeira fornecendo o gesto de acompanhar processos e composições em movimento; a segunda, a disciplina de habitar o campo antes de nomeá-lo.
Fica registrada, portanto, mais esta pista do percurso: um território com articulações internas fortes, fronteiras externas ainda em construção, e uma política que aprende a se sustentar dentro do tempo que lhe foi dado. Obrigado, Santa Catarina. Obrigado equipe do Núcleo.
Até o próximo registro.
