sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Cartografar sendo

Maceió, 11 de setembro de 2026, 10h47... Diário de bordo

Escrevo isso ainda com a poeira da estrada no corpo da última viagem. Outro Núcleo, outra sala, outras caras e, no entanto, uma sensação que insiste em se repetir a cada parada: a de que não chegamos a lugar nenhum de fora. Chegamos, sim, mas já misturados.


Kastrup e Passos (2013), quando falam da cartografia como método, insistem numa ideia que parece simples no papel e que só se entende de verdade no corpo, atravessando aeroporto, rodoviária, sala de reunião, roda de conversa: a de que pesquisador e campo não estão em planos separados. Não há um observador que sobrevoa e um objeto observado que fica lá, quietinho, esperando ser descrito. Há um plano comum, ou seja, um plano de composição onde as forças de quem cartografa e as forças do território pesquisado se atravessam, se afetam, se contaminam. Cartografar não é descrever uma paisagem da janela do avião. É pousar, descer, e deixar que a paisagem também nos desenhe.

Aquilo que já venho refletindo a algum tempo: afetar e deixar-se afetar.

O que a estrada tem nos ensinado é exatamente que cada Núcleo de Inovação para a Educação Híbrida que visitamos é um mundo particular, com sua história, seus atritos, suas alegrias e seus impasses. E é curioso perceber que aprendemos cartografia ali, no meio da roda, e não antes, num manual guardado na mochila. A formação do cartógrafo não é prévia ao campo. Ela acontece com o campo, na convivência, no compartilhamento de um café, no silêncio de quem ainda não sabe se pode confiar em nós, na pergunta que alguém faz e que desmancha uma certeza que trazíamos pronta.

Isso muda tudo. Muda, por exemplo, a pergunta que a gente se faz antes de entrar numa sala. Não é mais "o que vou observar aqui?", mas "o que vou me tornar, estando aqui?". Não é mais "o que este Núcleo é?", mas "o que estamos compondo, juntos, neste encontro?".

Cada vez fica mais claro que não falamos da RIEH. Somos RIEH enquanto cartografamos. É isso que temos percebido, viagem após viagem: não fazemos cartografia para falar da RIEH, como quem descreve algo de fora, com distância segura e linguagem técnica pronta. Fazemos cartografia sendo RIEH; entendendo a rede por dentro dela mesma, descobrindo o que ela é no próprio movimento de percorrê-la, fazendo-a se atualizar a cada Núcleo em que pousamos, a cada conversa em que nos deixamos afetar.

Isso talvez seja o mais difícil de explicar para quem espera de nós um relatório limpo, com categorias fechadas e conclusões definitivas. Porque o que vivemos é outra coisa: é formação em ato, é rede se fazendo enquanto a percorremos, é cartógrafo que também se transforma a cada Núcleo e que, por isso mesmo, chega ao próximo já um pouco diferente de quem chegou no anterior.

Por isso este texto é diário de bordo, e não relatório de viagem. Diário de bordo registra o movimento enquanto ele acontece, com suas dúvidas, seus tropeços, suas pequenas alegrias de reconhecimento. Relatório de viagem conta o que já passou, arrumado, com início, meio e fim.

O que temos vivido com os Núcleos de Inovação para a Educação Híbrida, Brasil afora, ainda não tem fim, porque não é uma coisa que observamos de fora terminar. É uma coisa que estamos, com outros, fazendo acontecer. E cartografar isso é, antes de tudo, aceitar entrar no plano comum: deixar-se afetar pela rede exatamente na medida em que ela também vai se afetando pela nossa presença ali.

Seguimos.

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