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quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Analisar e escrever em pesquisas cartográficas: gestos que se tecem no percurso

Vamos voltar nosso registro sobre a cartografia enquanto método de pesquisa. E estou utilizando este blog exatamente como diário reflexivo deste percurso de investigação. Aqui vou registrando minhas leituras, aprendizados, descobertas, e dúvidas também…

Nos últimos tempos tenho me aproximado cada vez mais das pesquisas que utilizam o método cartográfico no campo da Educação. Esse método me provoca porque exige um modo de presença atento, sensível e disposto a acompanhar os movimentos que surgem no território da pesquisa. Não se trata de organizar dados em caixas fechadas, mas de acompanhar fluxos, deslocamentos, tensões e afetos que atravessam as práticas educativas. É um convite a olhar para o que se mostra e também para o que escapa.

Nesse modo de pesquisar, a análise não espera o fim do trabalho. Ela acontece enquanto caminhamos. Cada gesto observado, cada conversa informal, cada registro de campo se torna pista. São pequenos sinais que, somados, vão desenhando o problema e dando densidade ao que pretendemos compreender. Em muitos momentos, percebo que a análise aparece antes mesmo de eu nomeá la. Surge no corpo, no incômodo, na alegria e até no silêncio.

A experiência recente com o Observatório da Rede de Inovação para a Educação Híbrida tem sido um exemplo fecundo desse modo de analisar enquanto se vive o percurso. No acompanhamento de escolas que integram a Rede, os registros não se organizam apenas como “dados”, mas como acontecimentos que nos afetam e nos convidam a pensar.

Lembro, por exemplo, de uma formação de professores em que observei um grupo discutindo a reorganização das aulas com atividades presenciais e remotas. Não havia uma divisão rígida entre um momento e outro. O que se via era o esforço contínuo de construir algo que fizesse sentido para os estudantes. Analisar esse episódio significou observar o movimento que surgia: a tentativa de ajustar rotinas sem perder a qualidade da interação. Na escrita dos resultados, esse momento não apareceu como um simples relato, mas como um analisador da própria noção de inovação. Ao narrar essa cena, pude mostrar como a inovação emerge mais das tensões vividas pelos professores do que de modelos pré definidos.

Outro momento marcante foi registrado durante um encontro formativo com gestores escolares. Enquanto discutiam desafios da aprendizagem, surgiu uma fala que atravessou todo o grupo: “A gente precisa aprender a ler o que não está dito”. Essa frase permaneceu ressoando durante todo o processo de análise. Quando escrevi sobre ela, percebi que funcionava como um analisador da própria pesquisa. Ali, diante daquele grupo, eu via o que a cartografia sempre ensinou: é preciso escutar o que se mostra nas entrelinhas, nos afetos, nos gestos, nos desajustes. A escrita dos resultados acabou se estruturando em torno dessa ideia de leitura ampliada, que nos permite ver a complexidade da Educação Híbrida para além de grades e ferramentas.

A escrita dos resultados, nesse contexto, não é apenas a etapa final do trabalho. Ela funciona quase como uma continuação do ato de acompanhar. Releio os registros, revisito fotografias, escuto novamente os áudios e retorno aos diários de campo. Não busco organizar dados brutos, mas reencontrar a força que cada situação produziu. É nesse retorno que novas conexões aparecem.

Em um dos textos produzidos para o Observatório, por exemplo, analisei a forma como estudantes narravam suas experiências em atividades on-line. Ao revisitar as falas, percebi que havia uma recorrência: a busca por autonomia vinha sempre acompanhada de pedidos por cuidado e presença. A escrita dos resultados se organizou a partir dessa tensão. Não foi um capítulo dividido entre categorias analíticas tradicionais, mas um texto que se dobrava em torno de duas forças que conviviam nas narrativas: autonomia e cuidado. Essas forças se entrelaçavam, fugiam do óbvio e mostravam que a Educação Híbrida não se resume a técnicas, mas envolve relações e vínculos.

Escrever, nesse método, é dobrar o percurso sobre si mesmo. O texto assume a forma de um movimento que vai e volta, que abre caminhos e que permite ao leitor sentir um pouco do que sentimos ao acompanhar o campo. Por isso, os resultados aparecem como narrativas densas, compostas por cenas, reflexões e retornos. Não buscam ser conclusões fechadas, mas convites para pensar junto.

Ao final, percebo que a análise e a escrita caminham lado a lado. Não são momentos isolados. Enquanto analiso, escrevo. Enquanto escrevo, analiso. E é justamente essa mistura que torna o método cartográfico tão potente para pesquisas em Educação. Ele nos permite compreender a escola, os professores e os estudantes em sua vitalidade, em seu movimento e em suas invenções cotidianas.

(A escrita, e a dobra).

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

XIV Congresso Ibero-Americano de Docência Universitária

Desde ontem estou tendo a satisfação de participar do XIV Congresso Ibero-Americano de Docência Universitária, um espaço privilegiado de diálogo, intercâmbio científico e reflexão crítica sobre os desafios contemporâneos do Ensino Superior. 

No dia de hoje apresentei um conjunto de pesquisas que venho desenvolvendo, todas atravessadas por uma preocupação comum: como as transformações digitais estão reconfigurando a docência universitária e os processos de formação de professores.

A primeira pesquisa, intitulada “Educação Híbrida e Transformação Digital: ecossistemas inovadores para a formação de professores no Ensino Superior”, em parceria com o Prof. Dr. Ibsen Bittencourt, discute a Educação Híbrida para além da simples combinação entre presencial e on-line. O estudo analisa a constituição de ecossistemas formativos inovadores, nos quais tecnologias digitais, metodologias ativas, novos papéis docentes e formas ampliadas de aprendizagem se articulam de modo integrado. Os resultados apontam que a transformação digital, quando compreendida de forma sistêmica, potencializa práticas formativas mais flexíveis, colaborativas e alinhadas às demandas contemporâneas da docência universitária.

A segunda pesquisa apresentada foi “Educação Híbrida e ludicidade: experiências com jogos e realidade aumentada na formação docente”desenvolvida em parceria com a Profa. Dra. Lilian Kelly de Almeida Figueiredo Voss, que investiga o potencial da ludicidade como estratégia formativa no Ensino Superior. O estudo analisa experiências que articulam jogos, dinâmicas lúdicas e recursos de realidade aumentada em contextos híbridos de formação docente. As evidências apontam para impactos positivos no engajamento, na motivação e no desenvolvimento de estratégias cognitivas e metacognitivas, reforçando a ludicidade como elemento estruturante (e não acessório) dos processos formativos.  

Por fim, apresentei a pesquisa “A incorporação da Inteligência Artificial (IA) nas práticas pedagógicas dos docentes da Universidade Aberta do Brasil (UAB)”, também em parceria com a Profa. Lilian Voss. O estudo analisa como docentes da UAB vêm incorporando a IA em suas práticas pedagógicas, identificando níveis de uso, percepções, dificuldades e necessidades formativas. Os resultados indicam que, embora haja um alto grau de familiaridade declarada com ferramentas de IA (especialmente o uso de sistemas como o ChatGPT), sua aplicação ainda é predominantemente instrumental, concentrando-se no planejamento das aulas, com menor incidência em processos de avaliação, personalização da aprendizagem e mediação pedagógica mais avançada. A pesquisa reforça a formação docente como elemento central para ampliar usos pedagógicos mais críticos, intencionais e éticos da IA no contexto da EaD pública.

Participar do XIV Congresso Ibero-Americano de Docência Universitária que se estende até amanhã aqui em Santiago de Compostela, sem dúvida é uma experiência enriquecedora, que reafirma a importância da pesquisa colaborativa, do diálogo internacional e da construção coletiva de caminhos para uma docência universitária mais inovadora, crítica e humanizadora. Seguimos refletindo, pesquisando e aprendendo, sempre em movimento.

Os resumos já foram publicados nos anais do evento e estão disponíveis em: https://cidusantiago2026.com/wp-content/uploads/2026/01/Libro-de-ACTAS-XIV-CIDU-Santiago-de-Compostela-2026-VF.pdf


segunda-feira, 13 de janeiro de 2025

Aula Inaugural UFAL: Educação Híbrida e Transformação Digital em Foco

No próximo dia 23 de janeiro de 2025, a Universidade Federal de Alagoas (UFAL) realizará a Aula Inaugural do Doutorado em Ensino, promovido pela Rede RENOEN (Rede Nordeste de Ensino). O evento ocorrerá no Auditório do Centro de Educação (Campus A. C. Simões, UFAL), às 9h da manhã.

Com o tema "Educação Híbrida e Transformação Digital: caminhos para a inovação no Ensino e Aprendizagem", estarei realizando essa aula inaugural.


A proposta da aula inaugural é debater os desafios e as possibilidades que as metodologias híbridas e a transformação digital oferecem ao contexto educacional, especialmente em tempos de constante inovação tecnológica e mudanças nas práticas de ensino-aprendizagem.


Destaques do Evento:

Data: 23/01/2025 - Horário: 9h - Local: Auditório do Centro de Educação, Campus A. C. Simões (UFAL)

O evento é uma oportunidade imperdível para estudantes, pesquisadores, professores e gestores educacionais interessados em se atualizar sobre tendências e práticas inovadoras no campo educacional.

Participe e venha refletir sobre o futuro da educação!