O mapa não antecede o território, mas nasce com ele!
No dia
27 de abril numa manhã de trabalho de pesquisa com Maria Julia e Débora, eu estava diante de um quadro branco cheio de setas, categorias e conexões. E ali, naquele momento de construção coletiva, me peguei pensando: como esse emaranhado se torna um mapa? Não no sentido geográfico, mas num sentido metodológico, no sentido daquilo que a pesquisa cartográfica propõe quando nos convida a acompanhar processos, e não a representar realidades já prontas.
Essa pergunta me pareceu suficientemente importante para merecer uma postagem. Afinal, quem pesquisa em educação com base na cartografia precisa responder, em algum momento, a uma questão aparentemente simples e profundamente complexa: o que, afinal, é o mapa que estamos construindo?
A metáfora que Passos, Kastrup e Escóssia (2009) herdaram de Deleuze e Guattari é precisa: o mapa não precede o território. Ele é feito no próprio caminhar. Isso significa uma virada epistemológica importante para quem vem de abordagens mais convencionais: não saímos ao campo para confirmar um mapa que já desenhamos na teoria. Saímos ao campo para que o mapa seja possível.
Em lugar de regras e protocolos, as pistas do método da cartografia destacam a importância da prática, de ir a campo, lançar-se na água, experimentar dispositivos, habitar um território, afinar a atenção, deslocar pontos de vista e praticar a escrita, sempre levando em conta a produção coletiva do conhecimento.
Isso tem consequências diretas para como interpretamos o que produzimos em entrevistas e visitas ao campo. Os dados não são evidências de algo que já existe lá fora, esperando ser capturado. São pistas. E pistas exigem um tipo de atenção diferente daquele que buscamos quando queremos provar uma hipótese.
Virgínia Kastrup cunhou uma ideia central para a cartografia: a atenção flutuante e concentrada do cartógrafo. O trabalho do cartógrafo requer uma aprendizagem inventiva para chegar a uma atenção concentrada e aberta ao plano coletivo de forças. Não é a atenção seletiva de quem já sabe o que quer encontrar. É uma atenção que permanece aberta ao que ainda não tem nome.
Na prática, isso se traduz em gestos concretos durante o trabalho de campo. Kastrup descreve quatro movimentos da atenção cartográfica que reconheço muito bem na minha própria experiência como pesquisador:
- rastreio: o pesquisador vaga pelo campo sem focar num objeto específico, abrindo-se ao que circula. É o momento de deixar as entrevistas falarem antes de enquadrá-las;
- toque: algo chama a atenção. Uma fala que se repete com intensidade diferente. Um silêncio. Uma contradição. Esse toque não é ainda uma análise; é um sinal de que algo merece parada;
- pouso: a atenção se detém. O pesquisador "pousa" sobre aquela pista e começa a construir uma relação com ela. É aqui que o diário de campo se torna indispensável; e
- reconhecimento atento: o reconhecimento atento não é a mera comparação com uma memória prévia, mas é feito por um trabalho de construção da percepção através do acionamento de circuitos e da expansão da cognição. Ou seja: quando reconhecemos algo no campo, não estamos confirmando o que já sabíamos; estamos criando uma percepção nova.
O diário como dispositivo central
O diário é o que torna visível a observação participante. Mais do que isso, esse procedimento dá visibilidade ao processo de construção coletiva do conhecimento. O diário de bordo de uma viagem-intervenção, ao ser apresentado na pesquisa, restitui um texto analítico ampliado, pois imprime ideias tanto dos pesquisadores-participantes quanto dos pesquisados-participantes.
Na cartografia, o diário não é um caderno de anotações secundário, mas é o instrumento onde o mapa começa a tomar forma. É lá que registramos o que nos afetou, antes de saber por quê. É lá que as pistas ganham visibilidade. Uma fala que nos incomodou numa entrevista, um detalhe de organização do espaço que contrariou o que nos disseram, uma tensão que sentimos ao entrar num determinado ambiente. Tudo isso vai ao diário, com a data, com o contexto, com a textura emocional da experiência.
O diário é também onde o pesquisador se implica. E a implicação, na cartografia, não é um problema a ser neutralizado. É parte constitutiva do conhecimento produzido.
Quando acumulamos materiais suficientes (entrevistas, registros de campo, documentos, memórias), o trabalho de construção do mapa passa a ser o de identificar as linhas que atravessam e compõem o território pesquisado. A pesquisa cartográfica busca mapear as linhas molares, moleculares e de fuga que produzem marcas subjetivas no território investigado.
Na educação, essas linhas aparecem o tempo todo:
As linhas de segmentaridade dura (ou molares) são as estruturas que organizam o campo de forma mais rígida: o currículo prescrito, os papéis docentes institucionalizados, os tempos e espaços escolares normatizados. Elas são relativamente estáveis e resistem à mudança.
As linhas de segmentaridade maleável (ou moleculares) são as tensões que coexistem com essas estruturas: as negociações cotidianas entre professores e alunos, as ambiguidades nas práticas pedagógicas, os ajustes informais que escapam ao planejamento. É onde o campo está em processo.
As linhas de fuga são os pontos de ruptura criativa: o que emerge de inesperado, o que não estava previsto, o que abre possibilidades novas. Na pesquisa que realizamos com a Rieh por exemplo, certas práticas inovadoras de professores surgem exatamente como linhas de fuga, não como desvio do caminho, mas como potência de invenção.
A diferença crucial em relação à análise temática convencional está aqui: não estamos apenas organizando conteúdos em categorias. Estamos mapeando forças em movimento. Uma categoria cartográfica não é um recipiente que acumula falas semelhantes. É uma articulação viva entre diferentes intensidades do campo.
A entrevista em uma cartografia deve considerar, concomitantemente, as experiências de vida dos participantes e a prática investigativa como espaço de produção de subjetividade. Isso muda tudo na forma de conduzir e analisar uma entrevista.
Numa entrevista cartográfica, não estamos apenas coletando informações sobre um tema. Estamos acompanhando como o entrevistado habita o território que pesquisamos. As perguntas são abertas não porque o pesquisador não sabe o que quer, mas porque o processo de responder também é uma produção de sentido, de memória, de posicionamento.
Na análise, algumas perguntas orientam o olhar:
- O que se repete com maior intensidade, não necessariamente com maior frequência?
- Onde aparecem as contradições? O que o entrevistado diz que contraria o que foi observado em campo?
- O que foi dito com hesitação, com humor, com emoção inesperada?
- O que não foi dito, mas estava presente?
- Quais metáforas o entrevistado usou espontaneamente para descrever sua experiência?
Cada um desses elementos é uma pista. E as pistas não são interpretadas isoladamente. Elas ganham sentido no conjunto do território que estamos mapeando.
Mas e então... como fazer o mapa?
Uma pergunta que sempre aparece em orientações de pesquisa cartográfica é: "mas como apresento isso numa dissertação ou tese?" A resposta não é simples, mas é clara: a pesquisa cartográfica não separa as etapas da investigação, e seus passos (produção/coleta, análise e discussão de dados) se sucedem sem se separar.
Na prática, isso significa que o texto da pesquisa cartográfica tende a ser narrativo, processual e implicado. Não há um capítulo de "resultados" desconectado da metodologia e da teoria. O mapa se constrói na escrita, e a escrita é parte do método.
Muitas das teses de doutorado que usaram cartografia em educação optam por uma estrutura em que os capítulos analíticos são organizados em torno de territórios, forças ou cenas do campo, e não em torno de temas abstratos. A análise emerge da narrativa, não a precede.
Uma questão que temos discutido no nosso grupo (e que agora aparece vivamente na fase de algumas análises que esta sendo realizada com o
Atlas.ti, é como ferramentas de análise qualitativa se articulam (ou tensionam) com a perspectiva cartográfica. Afinal, o Atlas.ti é uma ferramenta que organiza códigos, categorias e redes de relações: estruturas que, na cartografia, precisam permanecer abertas e processuais.
Minha posição é que o uso é possível e pode ser potente, desde que a ferramenta sirva ao método, e não o contrário. O Atlas.ti pode ajudar a visualizar conexões entre pistas, a rastrear a recorrência de certas intensidades no material empírico, a construir redes de relações entre categorias emergentes. Mas o movimento interpretativo, aquele que transforma uma categoria em linha, e uma linha num território, permanece sendo trabalho do pesquisador, no encontro com o campo.
Como escrevemos no quadro branco no dia 27/04: as categorias que emergem da nossa pesquisa com a Rieh não foram impostas ao campo. O campo as ensinou. O Atlas.ti vai nos ajudar a sistematizar essa aprendizagem, mas a inteligência da cartografia está no encontro humano com o território.
E para continuar o caminho... estou refletindo que a pesquisa cartográfica em educação ainda é um território em construção no Brasil. Cresce o número de dissertações e teses que a adotam, e cresce também a necessidade de sistematizar como se faz, não para transformá-la em protocolo, o que seria uma contradição em termos, mas para ajudar pesquisadores iniciantes a não se perderem na abertura que o método propõe. Até mesmo outros pesquisadores que não são da área de humanas e integrantes de comitês de ética em pesquisa precisam deste recurso (
vejam o que registrei aqui).
Nas próximas postagens, pretendo aprofundar alguns aspectos práticos: como organizar o diário de campo de uma pesquisa cartográfica, como articular categorias emergentes sem engessá-las, e como escrever um texto analítico que honre o caráter processual do método.
Por enquanto, fico com uma frase que carrego desde que comecei a estudar cartografia, e que continua sendo o melhor guia para o trabalho de campo: o mapa não é o território. Mas sem o mapa, perdemos o fio que nos permite, depois, narrar o que vivemos.
Referências principais:
DELEUZE, G.; GUATTARI, F.
Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia. Vol. 1. São Paulo: Ed. 34, 1995.
KASTRUP, V. O funcionamento da atenção no trabalho do cartógrafo. In: PASSOS, E.; KASTRUP, V.; ESCÓSSIA, L. da (Orgs.).
Pistas do método da cartografia: pesquisa-intervenção e produção de subjetividade. Porto Alegre: Sulina, 2009. p. 32-51.
PASSOS, E.; BARROS, R. B. A cartografia como método de pesquisa-intervenção. In: PASSOS, E.; KASTRUP, V.; ESCÓSSIA, L. da (Orgs.).
Pistas do método da cartografia. Porto Alegre: Sulina, 2009. p. 17-31.
POZZANA, L.; KASTRUP, V. Cartografar é acompanhar processos. In: PASSOS, E.; KASTRUP, V.; ESCÓSSIA, L. da (Orgs.).
Pistas do método da cartografia. Porto Alegre: Sulina, 2009. p. 52-75.
BARROS, L. M. R.; KASTRUP, V. Cartografar é acompanhar processos. In: PASSOS, E.; KASTRUP, V.; TEDESCO, S. (Orgs.).
Pistas do método da cartografia: a experiência da pesquisa e o plano comum. Porto Alegre: Sulina, 2014.
TEDESCO, S.; SADE, C.; CALIMAN, L. A entrevista na pesquisa cartográfica: a experiência do dizer.
Fractal: Revista de Psicologia, v. 25, n. 2, p. 299-322, 2013. Disponível em:
https://doi.org/10.1590/S1984-02922013000200006 Acesso: 02 maio 2026.