Há algo de ritual no final de um semestre letivo. As últimas aulas, os últimos trabalhos, as últimas conversas de corredor. O ar muda. As salas ficam com uma textura diferente, como se os espaços soubessem, antes mesmo de nós, que algo está se encerrando.
E então, inevitavelmente, nos vemos diante de uma janela.
Tenho pensado muito nessa metáfora nos últimos dias. Escrevi recentemente (no Instagram @fernandoscpimentel) que olhar pela janela parece ser fácil, mas difícil é perguntar o que existe além dela. É exatamente essa pergunta que o final do semestre nos convoca a fazer, não apenas sobre os conteúdos trabalhados, as competências desenvolvidas, os planos de ensino cumpridos, mas sobre o que realmente aconteceu naquele espaço entre nós e os nossos alunos.
A janela do semestre não é apenas uma moldura do tempo. É o espaço por onde passou luz, e às vezes sombra. Por onde circularam perguntas que não esperávamos, silêncios que falaram mais do que as palavras, olhares que nos disseram "entendi" e outros que confessaram, sem voz, "ainda não".
Final de semestre é tempo de balanço. Mas há balanços que contam apenas o que foi produzido, notas lançadas, conteúdos vencidos, cronogramas cumpridos. E há balanços que perguntam o que foi vivido. A formação humana, como tenho insistido neste espaço, acontece no espaço entre o que vemos e o que somos capazes de sentir, questionar e imaginar. Não se mede em planilhas. Ela aparece no estudante que, meses depois, nos encontra no corredor e diz: "Professor, aquela aula ficou comigo." Aparece na pergunta que um aluno fez e que nos obrigou a rever uma certeza antiga. Aparece no momento em que percebemos que, ao ensinar, também aprendemos.
Quando educamos com sensibilidade, ensinamos a perceber o outro. Quando educamos com criticidade, ensinamos a não aceitar o mundo como ele simplesmente é. Quando educamos com esperança, ensinamos que transformar é possível. Essas três palavras não são ornamento de discurso. São critério de avaliação do que realmente importa no nosso ofício. E o final do semestre é o momento certo para nos perguntarmos: quanto disso ficou? Quanto disso ainda está acontecendo, mesmo agora, nos trajetos de volta para casa dos nossos estudantes?
Há uma armadilha no final do semestre: a sensação de encerramento definitivo. O semestre acabou, a turma se desfez, o ciclo fechou. E com isso, às vezes, uma certa tristeza, ou, no oposto, um cansaço tão grande que mal temos energia para refletir sobre o que ficou. Mas fechar uma janela não é o mesmo que perder a paisagem.
O que aconteceu neste semestre não desaparece quando o diário de classe é entregue. Ele continua vivo nos sujeitos que habitaram aquelas salas conosco. Nos estudantes que levaram consigo uma pergunta, um texto, um modo diferente de olhar para um problema. E continua vivo em nós, nos afetamentos que ainda estamos processando, nas lacunas que percebemos, nos pontos em que nos surpreendemos com o que foi possível construir juntos. A cartografia me ensinou que o território não para de falar só porque o pesquisador parte. Algo semelhante acontece na docência: o processo educativo não encerra na última aula. Ele continua se desdobrando em cada um de nós e em cada um deles, em ritmos que não controlamos.
É aqui que a metáfora da janela ganha outra camada. Quando fechamos uma janela, criamos a condição para abrir outra. O que aprendemos neste semestre, sobre o que funcionou, sobre o que precisa mudar, sobre quem somos como professores, é exatamente o que nos prepara para o próximo começo. E esse próximo começo está sempre mais perto do que imaginamos.
Há uma renovação silenciosa que acontece no período entre semestres. Não é descanso apenas no sentido físico. É o tempo em que as experiências sedimentam, as intuições ganham forma, as perguntas que não tivemos tempo de fazer durante o semestre finalmente emergem. É o tempo em que o professor se prepara, não só com planos de aula, mas com uma disposição renovada para o encontro. Porque o encontro é sempre o centro. Não o conteúdo, não a metodologia, não a tecnologia, embora todos esses importem. O que move a educação, no fundo, é a relação entre sujeitos que se dispõem a aprender juntos. E para que esse encontro seja genuíno, o professor precisa chegar ao próximo semestre não apenas descansado, mas presente. Diferente, de algum modo, daquele que entrou na primeira aula do começo do ano.
Encerro com a mesma pergunta que fiz nas redes: que tipo de janela você abre para os seus alunos todos os dias? Mas agora adiciono uma outra: o que você viu pela janela deste semestre que vai mudar o modo como você olha para a próxima turma?
O final do semestre não é o fim da história. É o ponto em que a história dobra sobre si mesma e se prepara para continuar. Com os mesmos compromissos que nos movem, a sensibilidade, a criticidade, a esperança, mas com mais experiência, mais humildade e, quem sabe, mais gratidão pelo privilégio imenso e exigente de ser professor.
A janela se fecha. E já estou curioso para ver o que aparecerá na próxima.
Seguimos caminhando.
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