Abaixo organizo um roteiro de escrita. Não é um roteiro engessado... mas que serve como bússola.
1. Situar a cartografia como método
Comece dizendo que tipo de cartografia você utiliza e de qual tradição teórica ela se aproxima (Deleuze e Guattari, Passos e Kastrup, cartografia escolar, cartografia do imaginário etc.). Mostre que não se trata apenas de “fazer mapas”, mas de uma forma de pesquisar que acompanha processos, territórios existenciais, experiências e subjetivações na educação.
Perguntas que ajudam a escrever:
- Cartografia aqui é entendida como o quê? Método, ética, política da pesquisa, tudo isso ao mesmo tempo?
- Que autores sustentam essa escolha? (cite e explique brevemente a contribuição de cada um).
- Que tipo de território você acompanha: escola, formação docente, práticas curriculares, imaginário de estudantes, trajetos urbanos etc.?
Um exemplo de passagem: “Nesta pesquisa, a cartografia é assumida como método de acompanhar processos formativos e modos de subjetivação em contextos escolares, inspirada nas pistas metodológicas de Deleuze e Guattari e nas discussões recentes da cartografia em educação em ciências.”
2. Justificar a escolha da cartografia
Depois de situar o método, explicite por que cartografar e não aplicar um questionário, fazer estudo de caso clássico ou etnografia tal como tradicionalmente definida. A justificativa precisa dialogar com seu problema de pesquisa e com o tipo de dado que você busca (fluxos, percursos, afetos, encontros, rupturas, derivas).
Você pode:
- Relacionar cartografia e o objeto: por exemplo, formação de professores “em movimento”, currículo “em ato”, experiências de estudantes em deslocamento pela cidade ou pela escola.
- Mostrar que a cartografia aceita a complexidade, a não linearidade, o inesperado – algo importante quando se investigam territórios existenciais e imaginários.
- Indicar que pesquisar, aqui, implica intervir (formação, oficinas, percursos, rodas de conversa), e que a cartografia se sustenta justamente nessa pesquisa-intervenção.
Seus parágrafos de justificativa podem articular frases como: “Opto pela cartografia porque desejo acompanhar processualidades, mais do que medir variáveis previamente definidas, assumindo a pesquisa como intervenção e co-produção de sentidos com os sujeitos envolvidos.”
3. Explicar o desenho metodológico cartográfico
Em cartografia, não basta dizer “abordagem qualitativa”; é preciso mostrar como você desenhou a pesquisa como um mapa em construção. Uma boa estratégia é organizar esta parte em subitens: percurso de pesquisa, campo/território, participantes, dispositivos de acompanhamento e registro.
Você pode detalhar, por exemplo:
- Percurso de pesquisa: como a investigação começou, que movimentos iniciais foram feitos (levantamento bibliográfico, aproximação ao campo, contatos exploratórios).
- Campo/território: que espaços foram cartografados (escolas, laboratórios pedagógicos, formações, comunidades), como você chegou a eles e como se deu a negociação de entrada.
- Participantes: em vez de uma amostra fixa, descreva quem se constituiu como coletivo de pesquisa ao longo do processo (professores, estudantes, gestores), enfatizando a ideia de coautoria dos percursos.
Nesse ponto, é útil mostrar que o desenho é flexível, aberto a reorientações, mas não é “qualquer coisa”: há pistas, princípios e compromissos (por exemplo, acompanhar processos, atentar para afetos, registrar deslocamentos de posição, cartografar forças em jogo).
A seção metodológica em cartografia precisa tornar muito visível “como” você acompanha o campo. Em vez de falar genericamente em “técnicas de coleta”, use a linguagem dos dispositivos: passeios, oficinas, rodas de conversa, diários, mapas, desenhos, fotografias, registros de aula, conversas informais, documentos institucionais.
Para cada dispositivo:
- Diga o que ele é (ex.: percursos a pé pela escola com os estudantes, mapeando afetos e conflitos).
- Explique o que você busca cartografar ali (trajetos, usos dos espaços, percepções, imaginário, tensões).
- Mostre como o dispositivo articula pesquisa e formação (por exemplo, oficinas de cartografia escolar que formam professores e, ao mesmo tempo, geram material de pesquisa).
5. Explicitar o papel do pesquisador-cartógrafo
Outro trecho indispensável é o que discute a sua posição na pesquisa. A cartografia rompe com a ideia de pesquisador neutro e o assume como alguém implicado, que se afeta e deixa-se afetar, intervém, registra suas próprias derivas.
No texto metodológico, você pode:
- Falar de sua inserção no campo (professor-pesquisador, formador, convidado externo, membro de grupo).
- Explicitar como registra seus afetos, dúvidas, deslocamentos (diário de campo reflexivo, notas de implicação, mapas de si).
- Indicar que a análise nasce também desses registros, em diálogo com o material produzido com os participantes.
Isso ajuda o leitor a entender que a pesquisa é co-construída, que o método supõe um pesquisador participante e não um observador distante.
6. Apresentar o modo de análise na cartografia
A cartografia não costuma trabalhar com “categorias prévias” que se aplicam aos dados, mas com movimentos de análise que acompanham linhas, forças, agenciamentos. Apesar disso, a seção metodológica precisa dizer como você analisa: que movimentos realiza, que critérios usa para compor os mapas narrativos, conceituais ou gráficos.
Você pode:
- Descrever as etapas de análise (imersão nos registros, montagem de cenas, identificação de linhas de força, composição de mapas conceituais ou narrativos).
- Explicar que a análise é processual, vai ocorrendo junto com a pesquisa, em ciclos de problematização e reorientação dos dispositivos.
- Indicar referências metodológicas específicas sobre análise em cartografia (por exemplo, trabalhos que discutem pistas analíticas para cartografar processos educativos).
Na escrita, ajuda muito abandonar a expressão “tratamento de dados” e falar em “composição de cartografias”, “montagem de mapas”, “escrita de cenas”, “análise de trajetos e derivas”.
7. Tratar de ética e cuidados no percurso
Como a cartografia mexe com experiências, afetos e territórios existenciais, a dimensão ética não pode aparecer apenas como um parágrafo formal sobre Comitê de Ética. Na seção metodológica, vale explicitar:
- Como lidou com possíveis situações de sofrimento, conflitos, tensões que emergiram ao longo do processo (por exemplo, discussões sobre desigualdades, violências, exclusões).
- De que maneira devolveu algo ao campo (formações, materiais, devolutivas públicas), reforçando a ideia de pesquisa-intervenção.
Em muitos trabalhos, a ética aparece também como princípio metodológico: cartografar sem capturar, sem reduzir a experiência a categorias rígidas, acolhendo a pluralidade de narrativas.
É útil encerrar a seção metodológica oferecendo ao leitor uma espécie de mapa do restante da tese ou dissertação. Mostre como o percurso metodológico descrito se desdobra nas próximas seções: seções de análise, cenas cartográficas, mapas conceituais, discussões teóricas.
Você pode terminar com um parágrafo que:
- Retome os princípios metodológicos da cartografia que guiarão a análise (processualidade, implicação, atenção às derivas).
- Antecipe como o leitor encontrará os resultados: como narrativas cartográficas, mapas, cenas de pesquisa, composições entre imagens e textos.
Percebe que a intenção é que a seção não fique apenas descritiva? Ela prepara o leitor para percorrer a tese como quem percorre um território, compreendendo por que o texto assume determinada forma e como a metodologia cartográfica o sustentou.






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