Praticamente finalizando agosto e estou mais uma vez registrando aqui no blog as minhas impressões relacionadas ao que venho desenvolvendo na pesquisa.
Toda pesquisa que se preza tem seus períodos de campo, aqueles em que estamos entre aeroportos, núcleos, entrevistas e formulários. Mas toda pesquisa também tem, ou deveria ter, seus períodos de recolhimento. Semanas em que paramos de correr atrás do dado e nos permitimos correr atrás de uma ferramenta, de um conceito, de uma linguagem nova que ainda não sabíamos que precisávamos.
Foi isso que fiz esta semana, ao realizar o curso de Liderança em Transformação Digital. E escrevo este registro não como um relatório de conteúdo aprendido, mas como o que este espaço sempre pretendeu ser: um diário de bordo, um lugar de elaboração da experiência de pesquisar, com suas afecções, suas dúvidas e seus recomeços.
Uma das primeiras coisas que o curso me fez reconhecer, ou talvez reconhecer de novo, com mais nitidez, é algo que qualquer pesquisador cartógrafo já sabe no corpo, mas que às vezes esquece de nomear: pesquisa exige maturação. Exige tempo. Não o tempo do cronograma que apresentamos às agências de fomento, mas um tempo mais lento, mais teimoso, o tempo em que as ideias precisam descansar antes de virarem categoria, antes de virarem mapa. Um curso como este, pensado para lideranças que atravessam processos de transformação digital em suas organizações, me devolveu essa lembrança de um ângulo inesperado: percebi, em cada técnica apresentada, uma espécie de espelho da própria pesquisa que venho conduzindo. Porque conduzir uma pesquisa cartográfica pelo Brasil é, também, liderar uma transformação. Só que a transformação, aqui, não é de uma empresa ou de um setor, mas do próprio olhar de quem pesquisa. E é justamente aí que a semana ganhou um peso que eu não esperava.
Um dos desafios mais concretos desta pesquisa, e que o curso me ajudou a nomear com mais precisão, está no tamanho do território que me proponho a cartografar. Não é uma metáfora fácil: a Rede de Inovação para a Educação Híbrida (RIEH) tem núcleos espalhados por um país de dimensões continentais, e isso não é um detalhe secundário do desenho metodológico. É, na prática, um dos elementos mais desafiadores de toda a pesquisa. Cada visita de campo carrega consigo uma logística que vai muito além da entrevista em si: custos financeiros que precisam ser planejados com antecedência e, ainda assim, sofrem imprevistos; deslocamentos físicos que consomem dias inteiros só em trânsito; agendas que precisam ser negociadas, remarcadas, ajustadas conforme a disponibilidade de gestores e professores que têm suas próprias urgências; e, talvez o mais delicado de tudo, um exercício constante de diálogo e diplomacia com territórios que têm histórias, culturas institucionais e sensibilidades políticas muito distintas entre si.
Não é um desafio que se resolve de uma vez. É um desafio que se administra, semana após semana, núcleo após núcleo, com paciência e com uma boa dose de improviso responsável. E confesso que, antes desta semana de formação, eu enxergava esse desafio quase exclusivamente como um problema operacional, algo a ser resolvido com planilhas e planejamento. O curso me ajudou a perceber que ele também é, e talvez principalmente, um problema de liderança: como conduzir uma equipe de pesquisa, como sustentar relações de confiança com tantos territórios diferentes, como manter o rumo de um projeto que, por sua própria natureza cartográfica, se recusa a ficar parado.
Aprendi técnicas de gestão de mudança, de comunicação estratégica, de tomada de decisão em contextos de incerteza, e enquanto eu absorvia cada uma delas, um exercício silencioso ia acontecendo em paralelo: eu as testava, mentalmente, contra os episódios que já vivi em campo. Contra o núcleo que ainda não foi inaugurado oficialmente, mas já funciona a todo vapor. Contra a equipe que reconfigura estúdio, câmeras e microfones em tempo real, sem protocolo prévio, porque a demanda dobrou de um dia para o outro. Contra a gestora que insiste numa definição rígida de um conceito que o próprio território já pratica de outras formas. Cada técnica de liderança em transformação digital que eu aprendia parecia, de algum modo, já ter sido ensaiada, empiricamente, por essas pessoas que venho entrevistando.
E isso me leva a algo que considero, de fato, o ganho mais significativo desta semana: repensar como as políticas públicas são planejadas e desenvolvidas. Há uma tentação, na formulação de políticas educacionais de escala nacional, de tratar a transformação digital como um pacote a ser distribuído, um conjunto de diretrizes e prazos que, uma vez publicados, resolvem o problema. O curso, ironicamente pensado para o mundo corporativo, mas em diálogo direto com o que venho observando no campo público, deixou claro que transformação não se decreta. Ela se lidera. E liderar, aqui, significa escutar antes de prescrever, testar antes de escalar, aceitar que cada território vai responder de um jeito distinto à mesma diretriz, porque cada território já chega com sua própria história de tentativa e erro.
É curioso perceber como pesquisa vai tomando forma à medida que vai sendo desenvolvida. Eu não vim para este curso buscando insumos para minha tese ou para o relatório de pós-doutorado. Vim buscando ferramentas de gestão para outros contextos da minha vida acadêmica e profissional. Mas a pesquisa, quando já está madura o suficiente, tem esse jeito de se infiltrar em tudo que fazemos: ela reaparece onde menos esperamos, ela puxa fios que pareciam desconectados e os costura em um mesmo tecido de sentido. Voltei do curso enxergando minha própria pesquisa de um lugar um pouco mais alto, com uma visão um pouco mais panorâmica sobre o que está explícito, os dados que colho, as falas que transcrevo, os mapas que desenho, mas também sobre o que fica implícito: as tensões de poder entre rede e território, as subjetividades de cada gestor que decide, apesar da falta de portaria, apesar da falta de estrutura, seguir formando e produzindo.
Talvez seja esse o maior aprendizado desta semana de formação: nem todo insumo de pesquisa vem do campo, da entrevista, do núcleo visitado. Às vezes ele vem de uma sala de aula sobre um tema aparentemente distante, e o trabalho do pesquisador cartógrafo é justamente esse: manter-se aberto, disponível para ser afetado também fora do território que mapeia. Foi o que esta semana me proporcionou. Uma pausa que não foi pausa. Um desvio que, no fim, reconduziu o mapa a um traço mais afinado com a complexidade que ele tenta representar.
Os desafios da dimensão geográfica da RIEH continuam aí, e não vão desaparecer com uma semana de curso. Mas talvez eu tenha voltado com mais ferramentas simbólicas para lidar com eles: mais clareza sobre o que significa liderar um processo de transformação em rede, mais paciência com o tempo que a maturação de uma pesquisa exige, e mais atenção ao que se diz e ao que fica em silêncio, dentro e fora do campo.
Seguimos formando, seguimos cartografando.

.jpeg)