Hoje no registro deste diário de bordo da pesquisa quero começar com uma confissão. Durante a visita aos três Núcleos de Inovação para a Educação Híbrida instalados em São Luís, algo me intrigou: pela primeira vez, tive a ansiedade de começar a escrever antes de concluir as atividades da pesquisa. Tentei acalmar o coração e a mente, embora já tenha rabiscado as primeiras linhas dentro do próprio espaço dos Núcleos. A versão publicável, porém, só ficou pronta hoje, às vésperas da minha partida da cidade.
Talvez a pressa em escrever diga algo sobre a experiência. Nesta visita, busquei vivenciar a imersão no campo de pesquisa: sentir como a história, a arquitetura, a cultura, a culinária e o jeito de ser da população local interferem no cotidiano e no desenvolvimento das ações dos Núcleos. Vale deixar isso registrado.
A cartografia, como método de pesquisa, nos lembra que, antes de pesquisar uma comunidade, é preciso chegar devagar. Passos, Kastrup e Escóssia, em Pistas do método da cartografia, falam de acompanhar processos, e não de representar objetos. Suely Rolnik, em Cartografia sentimental, lembra que o cartógrafo mergulha nas intensidades do território e "come" o que lhe serve de alimento. Já Deleuze e Guattari, ao apresentarem o rizoma, dizem que o mapa é aberto, conectável e sempre em construção. Por isso escutamos histórias, caminhamos pelas ruas, provamos a comida, observamos os encontros e também os silêncios. A cultura de um lugar não está só em dados: ela pulsa nos gestos, nas memórias e nas relações que o habitam.
Para entender como o Maranhão constrói seu conceito-prática de educação híbrida, foi preciso também compreender os 414 anos de história de sua capital.
Na visita in loco ao espaço onde os Núcleos funcionam, e nas entrevistas realizadas, percebemos uma intencionalidade pedagógica na produção dos projetos. Um deles já existia antes dos Núcleos: um estúdio de gravação, ainda sem os equipamentos atuais e sem uma equipe tão organizada. Isso nos diz algo importante: a educação híbrida no Maranhão não começou com o Núcleo, nem com a norma. Ela vem sendo gestada na prática, em iniciativas que encontraram, depois, um lugar institucional para crescer.
É aqui que a experiência de campo tem nos ensinado mais. A Resolução CNE/CEB nº 2/2024 apresenta um conceito de educação híbrida que amplia os tempos e os espaços da aprendizagem. Mas o que temos percebido, nas andanças e visitas aos estados, é que essa ampliação ainda não se materializou. O que vemos nos Núcleos é a educação híbrida se constituindo no cotidiano, entre o que está previsto e o que é possível: nas escolhas de quem planeja, nas adaptações de cada professor, nas condições de acesso e conectividade, nas distâncias de um estado que é o segundo maior do Nordeste em extensão territorial. Os estúdios, a produção de conteúdo e a formação de professores são passos reais, e é assim que o conceito vai virando prática. Por isso falo em conceito-prática: o que está no papel e o que acontece de fato não são coisas separadas.
Ainda sentimos falta, porém, de um currículo que acompanhe essa ampliação. Nossa organização curricular continua muito "encaixotada": pensada para um tempo determinado e para um espaço determinado, a aula, a sala, a grade de horários. Enquanto isso não se desloca, a tecnologia corre o risco de apenas transportar a caixa de um lugar para outro. E essa ampliação ainda não é uma realidade em nenhum dos territórios que visitamos. Longe de ser crítica, é a constatação de que a norma abre um caminho que ainda está sendo percorrido, e de que cada território o percorre com os recursos, as histórias e os desafios que tem. Entender a educação híbrida "de fato constituída", e não apenas a prescrita, exige esse olhar de quem caminha junto. Encontramos, em São Luís, uma equipe dinâmica, organizada, afinada e comprometida com a aprendizagem dos estudantes, e isso faz diferença no modo como o conceito se materializa.
A partir de cada Núcleo que vamos visitando percebemos o quanto a inovação educacional vai brotando e exige novas dinâmicas, aprendizados, planejamentos, formações e políticas. Cada professor traz consigo suas experiências e sua capacidade de criar, de inovar, de se desalojar em busca de algo que promova aprendizagem. Vamos identificando igualmente o quanto o Brasil ainda precisa avançar em instrumentos capazes de acompanhar e verificar se as ações de fato promovem aprendizagem. Eventualmente, podemos até inferir que sim. Mas que dados e que evidências estamos produzindo ou coletando para auxiliar quem toma decisões? A política educacional de fato está cumprindo seu objetivo? Nossos estudantes estão de fato aprendendo? Aprendendo o que?
Sigamos avançando.



