Educação OnLine by Fernando Pimentel
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sábado, 12 de setembro de 2026
Diário de bordo: o que a Educação Híbrida já nos ensinou sobre si mesma
sexta-feira, 11 de setembro de 2026
Cartografar sendo
Escrevo isso ainda com a poeira da estrada no corpo da última viagem. Outro Núcleo, outra sala, outras caras e, no entanto, uma sensação que insiste em se repetir a cada parada: a de que não chegamos a lugar nenhum de fora. Chegamos, sim, mas já misturados.
Kastrup e Passos (2013), quando falam da cartografia como método, insistem numa ideia que parece simples no papel e que só se entende de verdade no corpo, atravessando aeroporto, rodoviária, sala de reunião, roda de conversa: a de que pesquisador e campo não estão em planos separados. Não há um observador que sobrevoa e um objeto observado que fica lá, quietinho, esperando ser descrito. Há um plano comum, ou seja, um plano de composição onde as forças de quem cartografa e as forças do território pesquisado se atravessam, se afetam, se contaminam. Cartografar não é descrever uma paisagem da janela do avião. É pousar, descer, e deixar que a paisagem também nos desenhe.
Aquilo que já venho refletindo a algum tempo: afetar e deixar-se afetar.
O que a estrada tem nos ensinado é exatamente que cada Núcleo de Inovação para a Educação Híbrida que visitamos é um mundo particular, com sua história, seus atritos, suas alegrias e seus impasses. E é curioso perceber que aprendemos cartografia ali, no meio da roda, e não antes, num manual guardado na mochila. A formação do cartógrafo não é prévia ao campo. Ela acontece com o campo, na convivência, no compartilhamento de um café, no silêncio de quem ainda não sabe se pode confiar em nós, na pergunta que alguém faz e que desmancha uma certeza que trazíamos pronta.
Isso muda tudo. Muda, por exemplo, a pergunta que a gente se faz antes de entrar numa sala. Não é mais "o que vou observar aqui?", mas "o que vou me tornar, estando aqui?". Não é mais "o que este Núcleo é?", mas "o que estamos compondo, juntos, neste encontro?".
Cada vez fica mais claro que não falamos da RIEH. Somos RIEH enquanto cartografamos. É isso que temos percebido, viagem após viagem: não fazemos cartografia para falar da RIEH, como quem descreve algo de fora, com distância segura e linguagem técnica pronta. Fazemos cartografia sendo RIEH; entendendo a rede por dentro dela mesma, descobrindo o que ela é no próprio movimento de percorrê-la, fazendo-a se atualizar a cada Núcleo em que pousamos, a cada conversa em que nos deixamos afetar.
Isso talvez seja o mais difícil de explicar para quem espera de nós um relatório limpo, com categorias fechadas e conclusões definitivas. Porque o que vivemos é outra coisa: é formação em ato, é rede se fazendo enquanto a percorremos, é cartógrafo que também se transforma a cada Núcleo e que, por isso mesmo, chega ao próximo já um pouco diferente de quem chegou no anterior.
Por isso este texto é diário de bordo, e não relatório de viagem. Diário de bordo registra o movimento enquanto ele acontece, com suas dúvidas, seus tropeços, suas pequenas alegrias de reconhecimento. Relatório de viagem conta o que já passou, arrumado, com início, meio e fim.
O que temos vivido com os Núcleos de Inovação para a Educação Híbrida, Brasil afora, ainda não tem fim, porque não é uma coisa que observamos de fora terminar. É uma coisa que estamos, com outros, fazendo acontecer. E cartografar isso é, antes de tudo, aceitar entrar no plano comum: deixar-se afetar pela rede exatamente na medida em que ela também vai se afetando pela nossa presença ali.
Seguimos.
sábado, 5 de setembro de 2026
Cartografando o Núcleo de Inovação para a Educação Híbrida em Santa Catarina
Até o próximo registro.
domingo, 30 de agosto de 2026
Finalizando agosto com mais reflexões sobre o desenvolvimento da pesquisa
Praticamente finalizando agosto e estou mais uma vez registrando aqui no blog as minhas impressões relacionadas ao que venho desenvolvendo na pesquisa.
Toda pesquisa que se preza tem seus períodos de campo, aqueles em que estamos entre aeroportos, núcleos, entrevistas e formulários. Mas toda pesquisa também tem, ou deveria ter, seus períodos de recolhimento. Semanas em que paramos de correr atrás do dado e nos permitimos correr atrás de uma ferramenta, de um conceito, de uma linguagem nova que ainda não sabíamos que precisávamos.
Foi isso que fiz esta semana, ao realizar o curso de Liderança em Transformação Digital. E escrevo este registro não como um relatório de conteúdo aprendido, mas como o que este espaço sempre pretendeu ser: um diário de bordo, um lugar de elaboração da experiência de pesquisar, com suas afecções, suas dúvidas e seus recomeços.
Uma das primeiras coisas que o curso me fez reconhecer, ou talvez reconhecer de novo, com mais nitidez, é algo que qualquer pesquisador cartógrafo já sabe no corpo, mas que às vezes esquece de nomear: pesquisa exige maturação. Exige tempo. Não o tempo do cronograma que apresentamos às agências de fomento, mas um tempo mais lento, mais teimoso, o tempo em que as ideias precisam descansar antes de virarem categoria, antes de virarem mapa. Um curso como este, pensado para lideranças que atravessam processos de transformação digital em suas organizações, me devolveu essa lembrança de um ângulo inesperado: percebi, em cada técnica apresentada, uma espécie de espelho da própria pesquisa que venho conduzindo. Porque conduzir uma pesquisa cartográfica pelo Brasil é, também, liderar uma transformação. Só que a transformação, aqui, não é de uma empresa ou de um setor, mas do próprio olhar de quem pesquisa. E é justamente aí que a semana ganhou um peso que eu não esperava.
Um dos desafios mais concretos desta pesquisa, e que o curso me ajudou a nomear com mais precisão, está no tamanho do território que me proponho a cartografar. Não é uma metáfora fácil: a Rede de Inovação para a Educação Híbrida (RIEH) tem núcleos espalhados por um país de dimensões continentais, e isso não é um detalhe secundário do desenho metodológico. É, na prática, um dos elementos mais desafiadores de toda a pesquisa. Cada visita de campo carrega consigo uma logística que vai muito além da entrevista em si: custos financeiros que precisam ser planejados com antecedência e, ainda assim, sofrem imprevistos; deslocamentos físicos que consomem dias inteiros só em trânsito; agendas que precisam ser negociadas, remarcadas, ajustadas conforme a disponibilidade de gestores e professores que têm suas próprias urgências; e, talvez o mais delicado de tudo, um exercício constante de diálogo e diplomacia com territórios que têm histórias, culturas institucionais e sensibilidades políticas muito distintas entre si.
Não é um desafio que se resolve de uma vez. É um desafio que se administra, semana após semana, núcleo após núcleo, com paciência e com uma boa dose de improviso responsável. E confesso que, antes desta semana de formação, eu enxergava esse desafio quase exclusivamente como um problema operacional, algo a ser resolvido com planilhas e planejamento. O curso me ajudou a perceber que ele também é, e talvez principalmente, um problema de liderança: como conduzir uma equipe de pesquisa, como sustentar relações de confiança com tantos territórios diferentes, como manter o rumo de um projeto que, por sua própria natureza cartográfica, se recusa a ficar parado.
Aprendi técnicas de gestão de mudança, de comunicação estratégica, de tomada de decisão em contextos de incerteza, e enquanto eu absorvia cada uma delas, um exercício silencioso ia acontecendo em paralelo: eu as testava, mentalmente, contra os episódios que já vivi em campo. Contra o núcleo que ainda não foi inaugurado oficialmente, mas já funciona a todo vapor. Contra a equipe que reconfigura estúdio, câmeras e microfones em tempo real, sem protocolo prévio, porque a demanda dobrou de um dia para o outro. Contra a gestora que insiste numa definição rígida de um conceito que o próprio território já pratica de outras formas. Cada técnica de liderança em transformação digital que eu aprendia parecia, de algum modo, já ter sido ensaiada, empiricamente, por essas pessoas que venho entrevistando.
E isso me leva a algo que considero, de fato, o ganho mais significativo desta semana: repensar como as políticas públicas são planejadas e desenvolvidas. Há uma tentação, na formulação de políticas educacionais de escala nacional, de tratar a transformação digital como um pacote a ser distribuído, um conjunto de diretrizes e prazos que, uma vez publicados, resolvem o problema. O curso, ironicamente pensado para o mundo corporativo, mas em diálogo direto com o que venho observando no campo público, deixou claro que transformação não se decreta. Ela se lidera. E liderar, aqui, significa escutar antes de prescrever, testar antes de escalar, aceitar que cada território vai responder de um jeito distinto à mesma diretriz, porque cada território já chega com sua própria história de tentativa e erro.
É curioso perceber como pesquisa vai tomando forma à medida que vai sendo desenvolvida. Eu não vim para este curso buscando insumos para minha tese ou para o relatório de pós-doutorado. Vim buscando ferramentas de gestão para outros contextos da minha vida acadêmica e profissional. Mas a pesquisa, quando já está madura o suficiente, tem esse jeito de se infiltrar em tudo que fazemos: ela reaparece onde menos esperamos, ela puxa fios que pareciam desconectados e os costura em um mesmo tecido de sentido. Voltei do curso enxergando minha própria pesquisa de um lugar um pouco mais alto, com uma visão um pouco mais panorâmica sobre o que está explícito, os dados que colho, as falas que transcrevo, os mapas que desenho, mas também sobre o que fica implícito: as tensões de poder entre rede e território, as subjetividades de cada gestor que decide, apesar da falta de portaria, apesar da falta de estrutura, seguir formando e produzindo.
Talvez seja esse o maior aprendizado desta semana de formação: nem todo insumo de pesquisa vem do campo, da entrevista, do núcleo visitado. Às vezes ele vem de uma sala de aula sobre um tema aparentemente distante, e o trabalho do pesquisador cartógrafo é justamente esse: manter-se aberto, disponível para ser afetado também fora do território que mapeia. Foi o que esta semana me proporcionou. Uma pausa que não foi pausa. Um desvio que, no fim, reconduziu o mapa a um traço mais afinado com a complexidade que ele tenta representar.
Os desafios da dimensão geográfica da RIEH continuam aí, e não vão desaparecer com uma semana de curso. Mas talvez eu tenha voltado com mais ferramentas simbólicas para lidar com eles: mais clareza sobre o que significa liderar um processo de transformação em rede, mais paciência com o tempo que a maturação de uma pesquisa exige, e mais atenção ao que se diz e ao que fica em silêncio, dentro e fora do campo.
Seguimos formando, seguimos cartografando.
terça-feira, 18 de agosto de 2026
Jogos narrativos em sala de aula: o que eles têm a ensinar (e o que exigem de cuidado)
The Last of Us
Life is Strange
O padrão Telltale
Uma síntese rápida:
O que fica dessa análise?
domingo, 16 de agosto de 2026
Uma equipe entrosada e uma aposta na recomposição das aprendizagens
Diário de bordo · Visita ao Núcleo · Campo Grande, MS
Equipe entrosada, equipe convicta — foi essa a impressão que levamos da visita.
Seguimos cartografando.
terça-feira, 11 de agosto de 2026
Do alto, cartografando...
Seguimos, aprendendo.
segunda-feira, 10 de agosto de 2026
Cartografias de um Brasil que não cabe em um único mapa
A Educação Híbrida, pensada em escala nacional, só faz sentido se conseguir sustentar essa tensão entre um projeto comum e a pluralidade radical dos territórios onde esse projeto precisa acontecer. E essa é uma lição que o campo ensina de um jeito que nenhuma leitura prévia consegue substituir.
Ainda há núcleos a visitar. Ainda há agendas a confirmar. E ainda há, tenho certeza, muitos mapas por refazer.
sábado, 8 de agosto de 2026
Dos formulários ao mapa: como estamos organizando os dados da pesquisa
Diário de bordo · Pesquisa cartográfica · RIEH · 8 de agosto de 2026
Há uma pergunta que todo pesquisador cartógrafo enfrenta cedo ou tarde: e depois que a gente volta do campo, o que fazer com tudo aquilo? As entrevistas, os áudios, os diários, as percepções que cada pesquisador traz consigo... tudo isso precisa de um caminho até virar mapa. Neste registro de hoje, parte de nosso diário de campo, queremos abrir esse caminho para quem nos acompanha.
Nas últimas semanas, o grupo tem se dedicado a um procedimento de organização dos dados coletados nas visitas aos núcleos da RIEH. As entrevistas com gestores, técnicos, professores e as percepções que cada pesquisador registra durante e depois da visita têm sido recolhidas por meio de um formulário on-line, o que já nos ajuda a padronizar o que cada território nos devolve. Ao mesmo tempo, os áudios das entrevistas estão sendo transcritos e revisados, um a um, para que nenhuma fala se perca na travessia entre o campo e o mapa.
Depois de transcritos, os dados passam por um tratamento: primeiro viram arquivos em PDF, depois são convertidos para arquivos em Markdown, usando o CloudConvert. Pode parecer um detalhe técnico sem importância, mas não é, pois é esse formato mais simples e mais limpo que nos permite, no passo seguinte, sistematizar um volume grande de entrevistas e respostas sem perder de vista o que realmente importa: o que o campo disse.
E é aqui que a inteligência artificial entra no processo. Temos usado o Claude.com para nos ajudar a sistematizar os dados já tratados: organizar respostas por localização, cruzar entrevistas, apontar recorrências entre territórios que, de outra forma, levariam muito mais tempo para aparecer. A partir dessa sistematização, o mapa é reelaborado no Miro, onde as linhas (duras, maleáveis, de fuga) ganham corpo visual e podem ser manipuladas, comparadas, revistas.
Mas uma coisa precisa ficar dita com todas as letras, porque é o que garante o rigor de tudo isso: mesmo com o auxílio da IA, a última análise é sempre feita pelos pesquisadores. É a equipe que lê o que foi sistematizado, que decide se aquilo é mesmo uma linha dura ou uma maleável, que insere, ou não, a observação no mapa cartográfico. A inteligência artificial organiza, cruza, sugere. Quem cartografa continua sendo o pesquisador, com sua escuta, sua dúvida e seu afeto pelo campo.
Achamos importante compartilhar esse processo porque a cartografia, como método, não esconde seus bastidores, pelo contrário, ela os expõe como parte do próprio conhecimento produzido. Um mapa que não mostra como foi feito é um mapa que pede fé demais de quem o lê. E nós preferimos pedir companhia.
Seguimos organizando, seguimos cartografando. E vamos então observar o que achamos?




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