sábado, 26 de setembro de 2026

O que é um Núcleo de Inovação para a Educação Híbrida?

Diário de bordo, 26 de setembro de 2026.

Um núcleo que não é lugar.
Uma política que se metaboliza.
Uma escrita que também pesquisa.

Neste registro deste diário de pesquisa, duas inquietações que me acompanham há algum tempo ganharam contorno mais nítido durante esta semana. Não saberia dizer quando começaram. Sei que se adensaram entre leituras, conversas e uma visita que, embora não fosse a primeira, me fez ver de outro modo algo que eu achava já conhecer.

O que é, afinal, um Núcleo? Esta pergunta percorreu todo o primeiro ano da pesquisa. Ela esteve nas leituras e nas visitas in loco a cerca de 40% dos Núcleos de Inovação para a Educação Híbrida (NIEH) espalhados pelo Brasil. Alguns estavam em plena atuação, outros ainda em implantação ou organizando as primeiras atividades. Em cada visita, a pergunta voltava por um caminho diferente.

No início, confesso, eu imaginava os Núcleos como presenças físicas dentro das escolas, espaços dedicados a promover ali a Educação Híbrida. Era uma imagem simples, quase arquitetônica: o Núcleo seria uma sala, um lugar, um endereço. E era nos Núcleos, eu pensava, que tudo deveria acontecer.

Na última quarta-feira, 23 de setembro, voltei ao primeiro Núcleo instalado, no espaço físico da Ufal. Criado como piloto, como teste, nas palavras do coordenador da RIEH, prof. Ibsen Bittencourt. Não era uma visita a um lugar desconhecido. Conheço bem esse Núcleo. Já participei ali de várias iniciativas que usaram, de fato e de direito, as potencialidades que ele oferece. Talvez por isso eu não esperasse ser surpreendido.


Mas fui. Naquela manhã, algo se reorganizou. A sensação que me tomou foi de descoberta, quase de iluminação: uma clareza de entendimento que eu não tinha ido buscar e que chegou sem pedir licença. Enquanto estava ali, vieram à lembrança, um a um, os outros Núcleos que visitei ao longo do ano. Os que funcionavam plenamente, os que ainda procuravam o seu modo de funcionar. E fui percebendo, de forma concreta, algo que até então eu só intuía nas leituras: o conceito estava materializado diante de mim, mas não nas paredes. Estava nas relações que aquele espaço tinha tornado possíveis.

Saí de lá sem a ideia com que tinha começado a pesquisa. Já não penso que é nos Núcleos que tudo deve ser realizado para o desenvolvimento da Educação Híbrida. O Núcleo não é o lugar onde a Educação Híbrida acontece. É algo que faz ela acontecer em outros lugares.

Foi então que me ocorreu uma analogia, que registro aqui como pista e não como conclusão. Na biologia, o núcleo celular não é simplesmente o lugar onde as coisas acontecem. Ele concentra informação, regula processos, organiza atividades e participa da reprodução e da transformação da célula. Tentei sistematizar essa aproximação no quadro abaixo, acrescentando uma terceira coluna com as perguntas que a analogia me devolve para o campo:


O que mais me mobiliza nessa imagem é o fato de que o núcleo celular não produz sozinho a vida da célula. Ele faz parte de um sistema interdependente. Isso me ajuda a desconfiar de uma ideia muito comum, que talvez eu mesmo carregasse no início: a do Núcleo como um centro que irradia inovação, de dentro para fora e de cima para baixo. Começo a pensá-lo, em vez disso, como um nó articulador de uma rede viva, cuja existência depende das relações que estabelece com escolas, professores, estudantes, gestores, universidades, tecnologias e políticas públicas.

Nesse deslocamento, "núcleo" deixa de nomear um espaço físico ou uma estrutura administrativa e passa a nomear uma função: concentrar, articular, produzir, metabolizar e disseminar conhecimentos e práticas, em troca permanente com o ambiente.

A palavra metabolismo foi a que ficou comigo depois da visita. O Núcleo recebe elementos da política, das pesquisas, das experiências docentes e das demandas da escola. Esses elementos são apropriados, transformados e recombinados em cada contexto. O que entra não sai necessariamente igual. E isso conversa diretamente com a nossa escolha de cartografar a implementação da RIEH. Talvez não estejamos acompanhando apenas a "implementação" de uma política, mas o modo como diferentes territórios a metabolizam.

Arrisco, então, uma formulação provisória. Os NIEH podem ser compreendidos, metaforicamente, como núcleos de um sistema vivo de inovação pedagógica: espaços que concentram conhecimentos e experiências, articulam sujeitos e processos, metabolizam as orientações das políticas educacionais e produzem novas possibilidades de prática, sempre em interação com o contexto em que estão inseridos.

Registro também o cuidado: trata-se de uma analogia heurística, e não de uma transposição direta de conceitos da biologia para a educação. E deixo em aberto o que ainda não entendo. Nos Núcleos em implantação que visitei, esse "metabolismo" já está acontecendo, ou ainda não há o que metabolizar? E um Núcleo pode existir antes de ter relações?

E vem então a segunda questão que me tomou os últimos dias... como escrever o que o campo nos dá?

A segunda inquietação diz respeito ao próprio gesto de escrever estes relatos. Como registrar os dados que produzimos, e como a escrita participa da análise cartográfica? Para ampliar essa conversa, o mestrando Fernando Costa compartilhou com o grupo de pesquisa o texto de Verônica Gurgel, Pistas para a escrita de relatos cartográficos (https://doi.org/10.12957/riae.2023.80649). A leitura me fez olhar de volta para este blog e para o modo como temos escrito nele.

A autora parte de uma ideia que, na cartografia, já conhecemos no plano do método, mas que raramente aplicamos à escrita: não coletamos dados, nós os produzimos. Se é assim, o relato de campo não é o lugar onde depositamos o que já sabíamos. É um dos lugares onde o campo emerge. Escrever também é pesquisar (Gurgel, 2023).

Algumas pistas do texto me tocaram de modo especial, porque reconheço nelas tanto o que já fazemos quanto o que ainda nos falta:

a) a primeira é que o relato cartográfico não é relatório. Data, local e quem estava presente são necessários, mas não bastam. O relato precisa acolher os afetos da experiência, as associações, os estranhamentos. Também não é diário íntimo nem texto hermético: ele precisa ser partilhável. Reli alguns relatos nossos e percebi que, às vezes, oscilamos entre esses dois polos.

b) a segunda é a ideia de escrita encarnada, que a autora busca em Vermersch: passar do genérico ("os Núcleos costumam...") para o concreto ("naquele dia, naquela sala..."). Não por preciosismo, mas porque essa mudança nos devolve à experiência. Foi o que tentei fazer acima, voltando à visita à Ufal antes de chegar à metáfora.

c) a terceira é a de não ser exaustivo. Um relato pode se organizar em torno de um momento que nos chamou a atenção, e dar-lhe um título ajuda a descobrir qual foi esse momento. Um bom relato abriga contradições e enigmas. Pode levantar hipóteses, mas sem fechá-las cedo demais em modelos teóricos prontos. Isso me faz pensar que a metáfora do núcleo celular precisa continuar sendo uma pergunta, e não virar uma moldura onde encaixamos o campo.

d) a quarta é a polifonia. O relato não carrega só a voz de quem escreve, mas também a dos outros que viveram a situação. Nas próximas visitas, quero trazer mais as falas de coordenadores, professores e gestores dos Núcleos para dentro destes registros.

e) a pista da revisão como um ver de novo: deixar o texto descansar, relê-lo como quem não o conhece e, sobretudo, compartilhá-lo com leitores generosos. Talvez este blog seja exatamente isso para nós: um espaço onde os relatos são lidos pelo grupo, provocam novas perguntas e voltam a nós transformados.

Fecho esse diário de hoje (ou desta semana?) com uma percepção que só apareceu enquanto escrevia. Há um paralelo entre as duas inquietações. Assim como o Núcleo metaboliza a política, o relato metaboliza o campo. O que vivemos nas visitas não chega ao texto do mesmo jeito que aconteceu. E, se Gurgel tem razão, quem escreve também não sai igual.

Um comentário:

Ecossistemas de Aprendizagem disse...

Achei sua reflexão muito importante, professor Fernando, e confesso que também já havia pensado nessa analogia com a célula. Todo núcleo desempenha uma função no sistema do qual participa, embora nem toda célula dependa de um núcleo para existir. Isso me levou a pensar que a educação híbrida, inclusive no contexto da RIEH, pode acontecer para além de um Núcleo de Inovação. No desenho institucional da Rede, entretanto, o Núcleo assume um papel de articulação entre secretarias, escolas, professores, estudantes, tecnologias e políticas educacionais. Assim, talvez a questão não seja apenas se a RIEH precisa de um espaço físico para funcionar, mas quais relações esse espaço consegue produzir e manter nos territórios. Sua reflexão ajuda justamente a compreender que o Núcleo não deve concentrar todas as ações da RIEH no espaço físico em que está instalado, mas favorecer que elas aconteçam e se ampliem em outros espaços do território.