segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Cartografias de um Brasil que não cabe em um único mapa



Todo mapa começa com uma convicção. Antes de embarcar para cada Núcleo eu já carregava um roteiro na cabeça: sabia o que ia perguntar, tinha hipóteses sobre o que ia encontrar, e imaginava, com razoável segurança, o desenho que os núcleos de inovação para a Educação Híbrida assumiriam quando eu voltasse. É assim que qualquer pesquisa de campo começa. Com um esboço. O problema, ou melhor, a beleza do problema, é que o campo nunca respeita o esboço.

O Brasil não é um lugar. São muitos lugares que aprenderam a compartilhar um nome, uma língua e um conjunto de leis que tentam, com sucesso desigual, tratar de forma parecida realidades que se parecem muito pouco entre si. Isso ficou evidente em cada núcleo visitado. O que funciona em Alagoas encontra outra lógica em Mato Grosso. O que faz sentido em Porto Alegre precisa ser traduzido, quase reinventado, quando chega ao Acre.

E é justamente aqui que mora a pergunta que tem guiado esse trabalho: como pensar políticas e ações educacionais que busquem unidade sem exigir uniformidade? A diferença entre essas duas palavras é sutil no papel e enorme na prática. Unidade é um horizonte comum, um compromisso compartilhado com a qualidade da educação. Uniformidade é a ilusão de que um único formato serve para todos os territórios, todas as escolas, todos os estudantes. A Educação Híbrida, quando bem pensada, não pede uniformidade. Ela pede escuta.

Não é acaso que Rio Branco concentra quatro núcleos visitados nesta etapa da pesquisa. Foi lá que a distância entre o que eu previa e o que encontrei se mostrou mais nítida. Cheguei com um roteiro de perguntas construído a partir de referências de outras regiões, e logo no primeiro núcleo percebi que várias delas simplesmente não faziam sentido naquele contexto. As condições de conectividade eram outras. A relação entre escola e comunidade tinha uma densidade diferente. As soluções encontradas pelos próprios educadores para os desafios da hibridização eram, muitas vezes, mais criativas do que qualquer coisa que eu tivesse lido antes de partir.

Volto sempre de cada núcleo visitado com menos certezas do que tinha ao chegar. E aprendi, aos poucos, que isso não é fracasso metodológico. É o próprio método funcionando.

Gosto de pensar nesse trabalho como um processo cartográfico. Um mapa nunca é neutro. Ele é sempre resultado de escolhas: o que entra, o que fica de fora, qual escala se usa, qual projeção se adota. Da mesma forma, cada visita de campo carrega escolhas prévias, hipóteses, um sentimento inicial sobre o que vamos encontrar. Isso não é um defeito a ser eliminado. É a condição de qualquer pesquisa que se propõe a olhar para o real.

O que muda, visita após visita, é a disposição de deixar que o campo corrija o mapa. Salvador e Campo Grande ainda estão por vir, e já sei que vou chegar lá com outra bagagem, formada pelo que aprendi em Maceió, em Arapiraca, em Aracaju. Florianópolis e Palmas seguem em processo de agendamento, e quando finalmente acontecerem, também vão me obrigar a revisar algo que hoje considero certo.

Talvez esse seja o maior aprendizado dessa etapa: pesquisar um país do tamanho e da diversidade do Brasil exige aceitar que o mapa nunca vai ficar pronto. Ele vai sendo redesenhado a cada núcleo, a cada conversa, a cada surpresa que desmonta uma convicção e constrói outra, um pouco mais afinada com a complexidade do território.

Escrevo esse texto, quase na hora de embarcar para Salvador, menos como um relatório de resultados e mais como um registro de disposição. A disposição de ir a campo com convicções, porque sem elas não há pergunta de pesquisa, e ao mesmo tempo com a humildade de saber que essas convicções vão ser tensionadas, ampliadas, às vezes completamente refeitas.

A Educação Híbrida, pensada em escala nacional, só faz sentido se conseguir sustentar essa tensão entre um projeto comum e a pluralidade radical dos territórios onde esse projeto precisa acontecer. E essa é uma lição que o campo ensina de um jeito que nenhuma leitura prévia consegue substituir.

Ainda há núcleos a visitar. Ainda há agendas a confirmar. E ainda há, tenho certeza, muitos mapas por refazer.

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