Hoje quero retomar aqui minha vertente de estudante da Filosofia Grega... talvez ela nos ajude a entender melhor o que pretendo discorrer neste comentário-postagem.
Na Odisseia de Homero, Ulisses precisava atravessar as águas perigosas onde habitavam as Sereias, criaturas cujo canto era de beleza irresistível, mas que conduzia os navegantes ao naufrágio. A solução não foi evitar o canto, nem tampouco abandonar o navio. Ulisses mandou os companheiros tapar os ouvidos com cera e a si mesmo ordenou que o amarrassem ao mastro. Assim pôde ouvir o canto sem ser arrastado por ele. A Sereia não foi negada; foi domesticada como passagem, não como destino.
Guardo esse mito como chave de leitura para o relato que a doutoranda Débora Avelino publicou no seu blog neste domingo, 26 de abril de 2026. Ela narra sua experiência com transcrição e tratamento de dados coletados na visita ao Núcleo de Inovação para Educação Híbrida sediado no município de Arapiraca-AL, no âmbito da pesquisa que o nosso grupo, Comunidades Virtuais Ufal, conduz sobre a RIEH. E o que ela faz, metodologicamente, é exatamente isso: ouvir o canto da IA sem ser devorada por ele.
Na pesquisa cartográfica que estamos desenvolvendo, os dados não são capturados, eles emergem. Emergem de encontros, de escutas, de deslocamentos que transformam tanto o campo quanto o pesquisador. Débora foi a Arapiraca. Entrevistou. Gravou. E então precisou fazer o que todo pesquisador qualitativo conhece bem: transformar oralidade em texto analisável, sem trair a voz de quem falou.
A Sereia, aqui, tem um nome preciso: é o Gemini. Uma ferramenta de inteligência artificial que Débora usou para o tratamento inicial do material transcrito automaticamente pelo gravador nativo do seu smartphone. O canto era sedutor: velocidade, cobertura integral, texto estruturado em minutos. A tentação de assumir aquele texto como produto final da análise existe e é real. Muitos pesquisadores, sobretudo os que estão vivendo pela primeira vez essa etapa do trabalho, naufragam exatamente aí: aceitam a transcrição automática como dado, e não como matéria-prima do dado.
Débora não naufragou.
O que ela descreve em seu relato é um processo de revisão rigorosa: voltou ao áudio original, fez escuta atenta em paralelo à leitura do texto gerado pela IA, confrontou palavra por palavra, corrigiu equívocos, acrescentou o que faltava, lapidou o que estava impreciso. Esse ir e vir não foi um desvio metodológico, foi o método em sua forma mais densa.
Na cartografia, Kastrup nos ensina que a atenção do pesquisador não é linear nem seletiva no sentido restritivo do termo. Ela rastreia, pousa, reconhece e se deixa tocar pelo que o território tem a dizer. É exatamente essa qualidade de atenção que Débora praticou ao se debruçar sobre as transcrições. O processo demorado e minucioso, que ela própria descreve como uma experiência "riquíssima", não foi apenas uma exigência técnica de fidelidade ao áudio. Foi um ato analítico. Foi o momento em que os dados começaram a ganhar sentido.
E aqui está o ponto que me parece mais precioso no relato: Débora afirma que esse mergulho nas entrelinhas fez com que ela percebesse com mais clareza a questão da perspectiva de formação e tudo o que a permeia. Ela não acessou esse nível de compreensão apesar do processo trabalhoso, ela o acessou por causa dele.
A Sereia não a levou ao naufrágio. A resistência ao canto, a insistência em amarrar-se ao mastro da escuta humana, foi o que lhe permitiu enxergar o que o processamento automático jamais poderia revelar: as nuances, os silêncios, os sentidos que vivem nas bordas da fala.
Este movimento que Débora narra é relevante também do ponto de vista teórico, e é algo que venho desenvolvendo neste blog ao longo dos últimos meses a partir da distinção entre tecnologia como ferramenta e tecnologia como artefato digital. O Gemini, neste contexto, não foi apenas "usado" para transcrever. Ele reorganizou o fluxo de trabalho e reconfigurou a posição da pesquisadora na relação com o dado: de produtora primária do texto, ela passou a revisora crítica. Essa reconfiguração tem implicações metodológicas não triviais.
Mas, e este é o ponto central, a IA não assumiu o papel analítico. Ela não foi sujeito da compreensão. Ela foi, nos termos mais rigorosos do conceito, um mediador. Um artefato que participa da produção do dado sem determinar seu sentido. Quem determina o sentido é a pesquisadora, com sua escuta, sua implicação no campo, sua sensibilidade cartográfica em formação.
É isso que diferencia um pesquisador que usa a IA como fim de um pesquisador que a usa como meio. O primeiro entrega o texto gerado automaticamente e encerra a etapa. O segundo reconhece que o texto gerado automaticamente é apenas o começo do trabalho.
Uma nota sobre a formação cartográfica: acompanho o percurso de Débora como orientador e posso dizer que o que ela documenta neste relato é um marco formativo. Não apenas pela competência técnica demonstrada, mas pela postura epistêmica que o relato revela: a disposição de se deixar afetar pelo processo, de não encurtar os caminhos, de reconhecer que a pesquisa exige presença (humana, intelectual, sensível) em cada etapa.
Isso é o que a pesquisa cartográfica nos pede. Não um protocolo que se cumpre mecanicamente, mas uma prática que se encarna na trajetória, que se faz no contato vivo com o campo e com os sujeitos que o habitam.
Ulisses chegou ao outro lado do mar. Ouviu o canto e sobreviveu. E o que sobreviveu, junto com ele, foi o sentido da travessia.
Parabéns, Débora, pelo rigor, pela honestidade metodológica e pela generosidade de documentar o processo.
Para ler o relato original, acesse: https://profdeboraavelino.blogspot.com/2026/04/transcricao-de-entrevistas-inteligencia.html
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