Dando continuidade aos estudos sobre a cartografia, a partir das pistas de Passos, Kastrup e Escóssia, vamos refletir um pouco sobre a reversão de método caminho‑meta em caminho‑com‑o‑campo. E já confesso que é um pouco complexo, quando se vem de uma trajetória de pesquisas com métodos "cartesianos".
A cartografia como “hódos-metá” tensiona diretamente a concepção clássica de método como caminho previamente traçado em direção a uma meta fixa, convidando o pesquisador a deslocar-se de um roteiro de etapas para uma prática de acompanhamento sensível dos processos em curso. Em vez de “aplicar” um método sobre um objeto já dado, o cartógrafo caminha com o campo, deixando-se afetar por seus fluxos, conflitos e emergências, o que implica reconhecer que tanto o pesquisador quanto o próprio problema de pesquisa se transformam durante o percurso. Esse deslocamento desestabiliza a ideia de neutralidade e controle, e coloca em questão modelos de pesquisa que reduzem o método a um conjunto de técnicas replicáveis e descontextualizadas.
Ao retomar as pistas de Passos, Kastrup e Escóssia, a cartografia é assumida menos como um manual de procedimentos e mais como uma ética e uma política do pesquisar, em que cada decisão metodológica é também uma tomada de posição no campo. Caminhar com o campo supõe abrir mão da segurança de um plano totalmente desenhado de antemão para aceitar o risco do encontro, do imprevisto, da contradição, o que exige do pesquisador um exercício permanente de atenção e reflexividade. Nessa perspectiva, diário de campo, narrativas, registros de afetação e intervenções não são “apêndices” ilustrativos, mas componentes centrais da própria produção de conhecimento, pois compõem os mapas que vão se fazendo no trajeto.
Essa reversão de caminho‑meta em caminho‑com‑o‑campo também problematiza a forma como a pesquisa se relaciona com as demandas institucionais por resultados rápidos, indicadores e “produtos” claramente delimitados. A cartografia, ao insistir no acompanhamento de processos, desafia temporalidades aceleradas e lógicas de prestação de contas que tendem a valorizar apenas o que é quantificável, mensurável e facilmente comparável. Em vez de responder apenas com números e categorias fechadas, o cartógrafo procura captar intensidades, deslocamentos e linhas de fuga que muitas vezes escapam às métricas tradicionais, tensionando o lugar dos próprios instrumentos de avaliação.
No contexto da educação e, em especial, da educação híbrida, assumir a cartografia como hódos-metá implica pensar o método como prática situada, que se faz nos entrelugares entre políticas, tecnologias, práticas docentes e experiências dos estudantes. Caminhar com o campo significa acompanhar como plataformas digitais, dispositivos de avaliação, formações docentes e condições materiais produzem modos específicos de aprender e ensinar, em vez de tratá-los apenas como variáveis em um desenho prévio. Ao problematizar essa passagem de método‑meta para método‑caminho, a cartografia abre espaço para epistemologias mais sensíveis, capazes de acolher a complexidade dos cotidianos escolares e de produzir conhecimentos que não apenas descrevem, mas também intervêm e inventam outros possíveis.
Referência de base: PASSOS, Eduardo; KASTRUP, Virgínia; ESCÓSSIA, Liliana da (orgs.). Pistas do método da cartografia: pesquisa‑intervenção e produção de subjetividade. Porto Alegre: Sulina, 2009.


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