Diário de bordo - 07 de novembro de 2026 - Maceió.
As Metamorfoses de Ovídio começam com o desejo do poeta de cantar as formas que se transformaram em novos corpos. Ao longo de quinze livros, nada fica parado. Deuses, pessoas, árvores e rios vão mudando de forma, mas alguma coisa de cada um permanece. Foi desse poema que me lembrei nos últimos dias, quando o Brasil inteiro pareceu caber em Maceió.
Dessa vez a cartografia não precisou viajar. O país veio até nós. Participei de três eventos simultâneos ligados à Política Nacional de Ensino Médio (PNAEM): a 3ª Expo Presencial da Rede de Inovação para a Educação Híbrida (RIEH), o 2º Encontro Presencial da REM e o 2º Encontro GEPEM. Ficamos imersos no Observatório da RIEH, na Universidade Federal de Alagoas. É o lugar onde a pesquisa mora e de onde parte cada viagem desta cartografia.
Não estive sozinho. Fui com os estudantes de iniciação científica, mestrado e doutorado que oriento, e quero registrar aqui como esses dias foram especiais. Para quem faz iniciação científica, era o primeiro evento desse porte. Ao mesmo tempo, participavam da Semana Internacional de Pedagogia promovida pelo Centro de Educação, onde apresentaram pela primeira vez seus trabalhos de pesquisa. Orgulho desse povo! Convivemos no diálogo, nas atividades, nas refeições, sempre com respeito e alegria. Na cartografia, o pesquisador não fica fora do campo (Passos; Kastrup; Escóssia, 2009), e um grupo de pesquisa também não. Aprendemos juntos a ser afetados pelo que acontece. Ver os mais novos descobrindo isso pela primeira vez também foi um acontecimento desta pesquisa.
Foram dias de trabalho intenso. Acompanhamos as ações da política e observamos como os Núcleos da RIEH vão contribuindo para ela. Também pudemos entrevistar pessoalmente os coordenadores dos Núcleos que ainda não tínhamos visitado: Pernambuco, Roraima, Amapá, Pará, Piauí e Minas Gerais. Minas, aliás, era o estado cuja visita havia sido cancelada praticamente às vésperas, e o cancelamento que acabou me levando ao Rio. A cartografia tem dessas coisas. O que o caminho fecha num lugar, ele abre em outro.
Além das entrevistas, participamos da programação e conversamos com profissionais de vários estados e do Distrito Federal que fazem a educação acontecer todos os dias. Os desafios apareceram, e são muitos. Mas, para nós, eles também mostram a beleza e a diversidade deste imenso Brasil. É aí que volto a Ovídio. Um conceito como o de educação híbrida não chega pronto aos territórios. A Resolução CNE/CEB nº 2/2024 define a educação híbrida como mediada pelo planejamento e pela ação docente, com o objetivo de ampliar os tempos e os espaços do processo educativo. No papel, a definição é uma só. Nas redes, ela ganha corpo. Vai entrando nas estruturas, refazendo práticas e descobrindo a própria dimensão. Em Goiás, por exemplo, ela é engrenagem de um sistema maior. No Rio, ela está dentro de um colégio. Em cada lugar, ela segue como um rio que contorna os obstáculos do percurso até chegar ao mar. A forma muda, mas o fluxo continua.
Mesmo sabendo e observando todos os desafios da PNAEM e particularmente da RIEH, durante os três dias foram compartilhadas conquistas que só quem conhece a realidade de cada rede sabe o quanto custaram. Para mim, o ponto alto foi o momento em que os coordenadores apresentaram suas experiências uns aos outros, em grupos. Lembrei de Vygotsky (2007), para quem aprendemos na interação com os outros e com o mundo à nossa volta. Lembrei também de uma pergunta que me acompanha desde o Acre: o que faz de uma rede uma rede nacional? Em quase todos os Núcleos visitados, ouvi que a troca entre estados ainda não acontece. Ali, durante algumas horas, ela aconteceu. Kastrup e Passos (2013) dizem que cartografar é traçar um plano comum. Naquelas rodas, vi esse plano ganhar forma, com Amapá conversando com Santa Catarina e Piauí ouvindo Mato Grosso do Sul.
Se eu tivesse que dizer o que esses três dias acrescentam à cartografia da Rede, diria que é a combinação de algumas coisas:
- o encontro presencial como espaço em que a rede de fato se torna rede;
- a escuta de territórios que ainda não tínhamos visitado e que agora fazem parte do mapa;
- a constatação de que a educação híbrida se faz de muitas formas, sem deixar de ser uma só política;
- e a formação de uma nova geração de pesquisadores, que aprende cartografando.
As linhas duras continuam lá. Distâncias, descontinuidades, equipes provisórias e transições de governo foram ditas mais de uma vez. Mas um encontro como este também abre linhas de fuga, possibilidades que não estavam previstas no mapa. No encerramento, a liderança da RIEH apresentou as propostas para 2027, com a intenção de consolidar a Rede e seguir avançando. A cartografia vai continuar acompanhando esse movimento.
Por fim, e não menos importante, deixo aqui um vídeo que gravei na visita ao Núcleo do Rio de Janeiro. Nele, três estudantes do Colégio Estadual João Alfredo mandam um recado especial para os coordenadores dos Núcleos. Prometi levar a mensagem, e ela chegou. O recado, como contei no diário do Rio, cabe em duas palavras: façam mais.
Há muito mais para contar, mas vamos registrando aos poucos. Agora temos uma nova missão: transcrever as entrevistas e catalogar as fotos e os vídeos destes três dias, que se juntam ao acervo da pesquisa.
Seguimos cartografando, como o rio que muda de forma sem deixar de correr...
E juntos, porque é na interação que uma rede aprende a ser rede...
Referências
BRASIL. Ministério da Educação. Conselho Nacional de Educação. Câmara de Educação Básica. Resolução CNE/CEB nº 2, de 13 de novembro de 2024. Institui as Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Médio. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, 14 nov. 2024.
BRASIL. Ministério da Educação. Portaria nº 865, de 8 de novembro de 2022. Institui a Rede de Inovação para a Educação Híbrida. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, 10 nov. 2022.
KASTRUP, V.; PASSOS, E. Cartografar é traçar um plano comum. Fractal: Revista de Psicologia, v. 25, n. 2, p. 263-280, 2013.
OVÍDIO. Metamorfoses. Tradução de Domingos Lucas Dias. São Paulo: Editora 34, 2017.
PASSOS, E.; KASTRUP, V.; ESCÓSSIA, L. (org.). Pistas do método da cartografia: pesquisa-intervenção e produção de subjetividade. Porto Alegre: Sulina, 2009.
VYGOTSKY, L. S. A formação social da mente. 7. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

Nenhum comentário:
Postar um comentário