Comentário ao relato de experiência de Diogo Ramos (Texto original disponível em: Entrelinhas e Links – Prof. Diogo)
Meu orientando do doutorado Renoen, Diogo Ramos, publicou recentemente em seu blog um relato de experiência sobre o processo de transcrição e tratamento de áudio referente a uma entrevista realizada no núcleo da RIEH em Maceió. O relato, escrito em primeira pessoa e com marcada dimensão reflexiva, documenta não apenas o que foi feito, mas o que foi aprendido ao longo do processo.
Nesta postagem aqui, entretanto, proponho uma leitura técnica do que Diogo descreveu, sistematizando o protocolo adotado e destacando o papel decisivo da ferramenta de IA utilizada na otimização do trabalho.
O contexto metodológico
A transcrição de entrevistas é etapa fundamental em pesquisas qualitativas. Sua função vai além do registro: ela transforma a linguagem oral em dado analisável, permitindo identificar recorrências temáticas, padrões discursivos e elementos subjetivos da fala que não seriam apreensíveis apenas pela escuta. Em investigações cartográficas (como a que estamos conduzindo sobre a RIEH), essa etapa adquire caráter ainda mais sensível, uma vez que a fidelidade ao discurso do entrevistado é condição para a integridade do processo analítico.
O protocolo adotado por Diogo: passo a passo
Com base no relato publicado, é possível reconstituir o seguinte protocolo de trabalho:
1. Acesso à plataforma e upload do arquivo. O ponto de partida foi o cadastro e acesso ao Tactiq, plataforma de transcrição automática baseada em IA. O arquivo de áudio da entrevista foi carregado diretamente na ferramenta.
2. Processamento automático pela IA. Após o upload, o sistema realizou a conversão fala-texto de forma automática, em tempo significativamente reduzido em comparação ao que demandaria uma transcrição manual integral. Essa é a etapa em que a IA demonstra seu principal diferencial: a velocidade de processamento sem perda de cobertura do conteúdo.
3. Notificação e acesso ao material transcrito. A plataforma encaminhou uma notificação via Gmail ao término do processamento, sinalizando a disponibilidade do texto gerado. Esse recurso de integração com ferramentas de comunicação contribui para a gestão eficiente do tempo do pesquisador.
4. Escuta paralela e revisão crítica do texto. Esta é a etapa de maior densidade metodológica. Diogo realizou a escuta integral do áudio em paralelo com a leitura do texto gerado pela IA. Nesse processo, foram identificados e corrigidos: palavras transcritas de forma equivocada, nomes próprios grafados incorretamente, expressões técnicas mal interpretadas pelo sistema e trechos em que a oralidade produziu construções ambíguas na versão escrita.
5. Tratamento textual. Além das correções de conteúdo, foram realizados ajustes de pontuação, reorganização sintática de frases fragmentadas e supressão de repetições excessivas — fenômenos comuns na fala espontânea, mas que comprometem a legibilidade do texto escrito e, consequentemente, a qualidade da análise posterior.
O papel da IA: otimização sem substituição
O Tactiq opera com reconhecimento automático de voz (ASR — Automatic Speech Recognition) e processa arquivos de áudio convertendo-os em texto de forma autônoma. No contexto da pesquisa acadêmica, sua contribuição é mensurável em pelo menos três dimensões:Redução do tempo operacional: a transcrição manual de uma entrevista de média duração pode demandar entre três e cinco vezes o tempo de reprodução do áudio. A IA reduz essa etapa a minutos, liberando o pesquisador para as fases analíticas do trabalho.
Cobertura integral: diferentemente da transcrição manual seletiva, o processamento automático cobre 100% do conteúdo do áudio, sem lacunas derivadas de cansaço ou distração do transcritor humano.
Base qualificada para revisão: ao gerar um texto inicial estruturado, a IA muda o papel do pesquisador na etapa de transcrição — de produtor primário do texto para revisor crítico. Essa reconfiguração é metodologicamente relevante, pois a escuta de revisão tende a ser mais analítica e atenta do que a escuta de transcrição.
A ferramenta apresenta, no entanto, limitações reconhecidas pelo próprio Diogo: dificuldade com nomes próprios, terminologia técnica e construções da oralidade espontânea. Essas limitações reforçam que a IA não substitui o pesquisador, mas reconfigura sua função — deslocando o esforço da tarefa operacional de digitação para a tarefa intelectual de revisão e qualificação do material.
Um dado formativo relevante
Vale destacar um aspecto que o próprio Diogo registra com clareza: por ser a primeira vez que conduzia esse tipo de atividade, o processo completo — transcrição automatizada mais tratamento do texto — demandou aproximadamente uma tarde inteira de trabalho. Esse dado é formativo em dois sentidos. Primeiro, porque indica que a curva de aprendizagem com ferramentas de IA na pesquisa existe e deve ser considerada no planejamento das etapas do trabalho. Segundo, porque sugere que, com a incorporação progressiva desse fluxo de trabalho, o tempo tende a diminuir consideravelmente nas transcrições seguintes.
Quem acompanha este blog sabe que tenho defendido a distinção entre tecnologia como ferramenta e tecnologia como artefato digital. O relato de Diogo oferece um exemplo concreto dessa distinção em ação: o Tactiq não foi apenas "usado" para transcrever — ele reorganizou o fluxo de trabalho, reconfigurou o papel do pesquisador e potencializou a qualidade do produto final. Isso é o que caracteriza um artefato digital no sentido pleno: não um instrumento passivo, mas um mediador ativo do processo de produção de conhecimento.
O próximo passo natural, dentro do protocolo que estamos desenvolvendo coletivamente, será a incorporação desse fluxo às demais entrevistas previstas na pesquisa — com os devidos registros sobre tempo, qualidade e desafios encontrados em cada caso.
Parabéns, Diogo, pelo rigor do processo e pela disposição de documentá-lo.
Para ler o relato original e completo de Diogo Ramos, acesse:
https://entrelinhaselinksprofdiogo.blogspot.com/2026/04/relato-de-experiencia-sobre-transcricao.html
Um comentário:
Muito obrigado pelas palavras e pela análise minuciosa, Professor!
Documentar esse processo foi um exercício fundamental para entender que a tecnologia, quando bem mediada, potencializa nosso rigor metodológico em vez de substituí-lo. Fico feliz em contribuir com o debate sobre o uso de IA e artefatos digitais na pesquisa qualitativa e na cartografia.
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