quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Santiago: experiência de êxodo interior

 

Há caminhos que não se percorrem apenas com os pés. Eles exigem o coração, o silêncio e a coragem de sair de si mesmo. Peregrinar até Santiago de Compostela foi, para mim, menos uma viagem e mais um despojamento: abandonar o ritmo conhecido da vida, as certezas confortáveis, os ruídos habituais, para me deixar conduzir por algo maior e, muitas vezes, imprevisível.

O silêncio foi o primeiro mestre. Não um silêncio vazio, mas um silêncio habitado. No compasso repetido dos passos, aprendi que Deus fala de maneira discreta, quase imperceptível, como o vento que atravessa os campos e as montanhas. Quando as palavras se tornavam supérfluas, o coração começava a compreender. Caminhar era rezar com o corpo inteiro.

Minha peregrinação, entretanto, não foi realizada com a habitual "caminhada" que tantos fazem até Santiago. Foi uma peregrinação com vários deslocamentos, usando vários meios. Mas como escutei aqui no Centro Internacional de Acolhimento ao Peregrino: o caminho se faz de diversas formas.

Sim... fiz caminhada, que com esforço constante, revelou-me a verdade simples e exigente da peregrinação: nada de essencial se conquista sem sacrifício. O frio cortava a pele, o vento desafiava a persistência, a chuva transformava o caminho em incerteza. Cada passo era uma pequena renúncia, cada dor uma lição de humildade. E, paradoxalmente, quanto mais o corpo se cansava, mais o espírito se abria.

Sair de si foi talvez a experiência mais profunda. Longe das rotinas, das agendas e das expectativas, fui sendo lentamente esvaziado de mim mesmo. A peregrinação obriga-nos a abandonar o controle, a aceitar o ritmo do caminho, a acolher o inesperado: encontros, limites, surpresas, perguntas. No caminho, percebi que Deus não se revela apenas no que planejamos, mas sobretudo no que não previmos.

Quando finalmente cheguei a Santiago, diante do túmulo do apóstolo, compreendi que toda a caminhada convergia para aquele instante de encontro. Ali, diante do testemunho de São Tiago, senti que não havia chegado apenas a um lugar, mas a uma verdade: a fé é uma travessia, e a vida cristã é essencialmente peregrina. O túmulo não falava de morte, mas de missão; não de fim, mas de envio.

Chegar a Santiago de Compostela sob a chuva fina e o frio cortante foi como atravessar um último limiar, quando o corpo cansado se rende e o espírito desperta em silêncio. Vim em uma época de poucos peregrinos. E eram poucos os que cruzavam as pedras molhadas da praça. Uns 15 a 20 no máximo. Essa ausência humana parecia ampliar o espaço interior. O som da água, o sino anunciando as 17h e o eco dos próprios passos se tornaram preces. Diante do túmulo do apóstolo, o tempo desacelerou. Pude permanecer ali, em quietude, deixando a gratidão se tornar canto, simples e inteiro, como quem reconhece no silêncio a verdadeira companhia do caminho. Como poucos peregrinos se encontravam no momento, parecia que a Catedral estava reservada para a minha experiência.

Após a missa, ao sair da catedral cansado, com frio e o coração desperto, compreendi que a peregrinação não termina em Compostela. Ela continua na vida cotidiana, nas escolhas silenciosas, nos passos discretos da fidelidade. Peregrinar é aprender que Deus não nos chama a permanecer, mas a avançar.

Porque, no fundo, a fé não é repouso, mas movimento. E, para quem deseja encontrar Deus, é preciso estar a caminho.

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