A escrita de diários de bordo em pesquisas cartográficas em educação não é um apêndice metodológico, mas um dispositivo de produção de conhecimento e de subjetividade, articulado ao próprio ato de pesquisar. Nesse sentido, o diário participa da cartografia de linhas, forças e movimentos que atravessam os territórios educativos, operando como espaço de registro, análise de implicações e invenção conceitual.
Cartografia em educação: método em processo
A cartografia, inspirada na filosofia da diferença de
Deleuze e Guattari, desloca a concepção de método como sequência fixa e
previsível, propondo um pesquisar que acompanha processos, variações e
metamorfoses da vida nos territórios educacionais. Em lugar da aplicação de um roteiro estável, o
pesquisador-cartógrafo trabalha sobre linhas, mapas e devires, atento às
intensidades que emergem no cotidiano escolar, universitário ou comunitário,
compondo um método sempre em processo, aberto ao inesperado .
O diário de bordo como dispositivo cartográfico
No interior desse horizonte metodológico, o diário de bordo
opera como um dispositivo que acompanha o percurso de pesquisa, permitindo
registrar acontecimentos, afetos, dúvidas, desvios e decisões que escapam aos
instrumentos padronizados . Mais do que um
simples repositório de fatos, o diário constitui um espaço de escrita em que
pesquisador e campo se co-constroem, num movimento de implicação e deslocamento
de si em relação às forças que atravessam a pesquisa.
Registro, implicação e análise
Ao escrever o diário, o pesquisador torna visíveis cenas,
falas, gestos e silêncios que compõem o cotidiano da pesquisa, bem como os
efeitos desses encontros sobre sua forma de ver, sentir e pensar a educação. As releituras sistemáticas desses registros alimentam a análise
de implicações, favorecendo a problematização de evidências naturalizadas, a
identificação de pontos estratégicos de aprendizagem e a abertura de linhas de
fuga diante de práticas, discursos e políticas hegemônicas.
Entre experiência, teoria e escrita
O diário de bordo configura-se também como um lugar de
experimentação teórico-conceitual, no qual conceitos como rizoma, linha de
fuga, devir, território e desterritorialização são colocados em prova na
fricção com as situações concretas da pesquisa. Ao articular cenas empíricas, afetos e conceitos, o pesquisador
traça mapas que não apenas descrevem realidades educacionais, mas criam novas
maneiras de pensá-las, habitá-las e transformá-las.
Diário e produção de subjetividade na educação
Nas pesquisas em educação, o uso sistemático de diários tem
demonstrado potência para deslocar práticas tradicionais de ensino,
aprendizagem e formação, instaurando processos de subjetivação mais críticos e
implicados. A escrita cotidiana intensifica
uma cognição inventiva: ao narrar e reler o que se vive no campo, estudantes,
professores e pesquisadores tornam visíveis tensões, desejos e possibilidades
que passam a orientar novos modos de fazer pedagógico e novos modos de estar na
escola ou na universidade.
Dimensões éticas e políticas do registro
Do ponto de vista ético-político, o diário de bordo
contribui para explicitar escolhas, negociações e limites do percurso
investigativo, contrastando com a imagem de um método neutro e linear. Ao tornar o caminho visível – com suas hesitações,
recortes e mudanças de rota –, o diário reforça a responsabilidade do
pesquisador com os coletivos envolvidos e com a coerência entre o que se afirma
teoricamente e o que se experimenta no campo.
Algumas pistas de uso do diário na pesquisa cartográfica
No contexto de pesquisas cartográficas em educação, algumas
pistas têm se mostrado fecundas para o trabalho com diários de bordo:
- Escrever
com regularidade, acolhendo tanto acontecimentos considerados relevantes
quanto detalhes aparentemente banais, uma vez que são, muitas vezes, as
pequenas variações que indicam linhas de fuga significativas.
- Revisitar
periodicamente os registros, produzindo camadas de leitura – anotações
laterais, mapas conceituais, marcações de afetos – que alimentem a análise
e permitam reconhecer movimentos e deslocamentos ao longo do tempo.
- Tratar
o diário como um espaço de experimentação de linguagens (narrativas
fragmentadas, desenhos, esquemas, mapas, fotografias), compondo uma
escrita capaz de acompanhar a multiplicidade dos processos educativos
cartografados.
Nessa perspectiva, o diário de bordo deixa de ser apenas um suporte de memória para converter-se em operador metodológico central: um dispositivo que sustenta a atenção às intensidades do campo, abre espaço para a invenção conceitual e fortalece a dimensão ético-política da pesquisa em educação inspirada em Deleuze e Guattari.
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