sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

O papel do diário de bordo na pesquisa cartográfica em educação

A escrita de diários de bordo em pesquisas cartográficas em educação não é um apêndice metodológico, mas um dispositivo de produção de conhecimento e de subjetividade, articulado ao próprio ato de pesquisar. Nesse sentido, o diário participa da cartografia de linhas, forças e movimentos que atravessam os territórios educativos, operando como espaço de registro, análise de implicações e invenção conceitual.


Cartografia em educação: método em processo

A cartografia, inspirada na filosofia da diferença de Deleuze e Guattari, desloca a concepção de método como sequência fixa e previsível, propondo um pesquisar que acompanha processos, variações e metamorfoses da vida nos territórios educacionais. Em lugar da aplicação de um roteiro estável, o pesquisador-cartógrafo trabalha sobre linhas, mapas e devires, atento às intensidades que emergem no cotidiano escolar, universitário ou comunitário, compondo um método sempre em processo, aberto ao inesperado .

O diário de bordo como dispositivo cartográfico

No interior desse horizonte metodológico, o diário de bordo opera como um dispositivo que acompanha o percurso de pesquisa, permitindo registrar acontecimentos, afetos, dúvidas, desvios e decisões que escapam aos instrumentos padronizados . Mais do que um simples repositório de fatos, o diário constitui um espaço de escrita em que pesquisador e campo se co-constroem, num movimento de implicação e deslocamento de si em relação às forças que atravessam a pesquisa.

Registro, implicação e análise

Ao escrever o diário, o pesquisador torna visíveis cenas, falas, gestos e silêncios que compõem o cotidiano da pesquisa, bem como os efeitos desses encontros sobre sua forma de ver, sentir e pensar a educação. As releituras sistemáticas desses registros alimentam a análise de implicações, favorecendo a problematização de evidências naturalizadas, a identificação de pontos estratégicos de aprendizagem e a abertura de linhas de fuga diante de práticas, discursos e políticas hegemônicas.

Entre experiência, teoria e escrita

O diário de bordo configura-se também como um lugar de experimentação teórico-conceitual, no qual conceitos como rizoma, linha de fuga, devir, território e desterritorialização são colocados em prova na fricção com as situações concretas da pesquisa. Ao articular cenas empíricas, afetos e conceitos, o pesquisador traça mapas que não apenas descrevem realidades educacionais, mas criam novas maneiras de pensá-las, habitá-las e transformá-las.

Diário e produção de subjetividade na educação

Nas pesquisas em educação, o uso sistemático de diários tem demonstrado potência para deslocar práticas tradicionais de ensino, aprendizagem e formação, instaurando processos de subjetivação mais críticos e implicados. A escrita cotidiana intensifica uma cognição inventiva: ao narrar e reler o que se vive no campo, estudantes, professores e pesquisadores tornam visíveis tensões, desejos e possibilidades que passam a orientar novos modos de fazer pedagógico e novos modos de estar na escola ou na universidade.

Dimensões éticas e políticas do registro

Do ponto de vista ético-político, o diário de bordo contribui para explicitar escolhas, negociações e limites do percurso investigativo, contrastando com a imagem de um método neutro e linear. Ao tornar o caminho visível – com suas hesitações, recortes e mudanças de rota –, o diário reforça a responsabilidade do pesquisador com os coletivos envolvidos e com a coerência entre o que se afirma teoricamente e o que se experimenta no campo.

Algumas pistas de uso do diário na pesquisa cartográfica

No contexto de pesquisas cartográficas em educação, algumas pistas têm se mostrado fecundas para o trabalho com diários de bordo:

  • Escrever com regularidade, acolhendo tanto acontecimentos considerados relevantes quanto detalhes aparentemente banais, uma vez que são, muitas vezes, as pequenas variações que indicam linhas de fuga significativas.
  • Revisitar periodicamente os registros, produzindo camadas de leitura – anotações laterais, mapas conceituais, marcações de afetos – que alimentem a análise e permitam reconhecer movimentos e deslocamentos ao longo do tempo.
  • Tratar o diário como um espaço de experimentação de linguagens (narrativas fragmentadas, desenhos, esquemas, mapas, fotografias), compondo uma escrita capaz de acompanhar a multiplicidade dos processos educativos cartografados.

Nessa perspectiva, o diário de bordo deixa de ser apenas um suporte de memória para converter-se em operador metodológico central: um dispositivo que sustenta a atenção às intensidades do campo, abre espaço para a invenção conceitual e fortalece a dimensão ético-política da pesquisa em educação inspirada em Deleuze e Guattari.

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