sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Laptops mudam cotidiano de escola rural

Projeto Um Computador por Aluno fez uma revolução silenciosa na Escola São Rafael, em Coruripe

Cátia Pimentel | Texto e Fotos

Localizada a 97 km de Maceió, a Escola Municipal São Rafael é a única no Distrito de Pindorama, município alagoano de Coruripe. 

Apesar da simplicidade, a escola tem registrado bons resultados no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), todos acima da meta nas últimas avaliações. A escola alcançou média 4,8 pontos em 2011, quando a meta do governo federal era de 3,8.

Uma das explicações para o avanço é a mudança na realidade da vida dos alunos e familiares através do projeto do governo federal que disponibiliza laptops para cada estudante (Programa UCA).

Em Alagoas, a São Rafael é a única onde crianças e adolescentes levam o laptop para casa, inserindo a tecnologia no cotidiano da família e mudando a realidade da zona rural alagoana.

Contando com equipe de 20 professores, a escola funciona nos três turnos, atende 495 alunos da Educação Infantil a Educação de Jovens e Adultos (EJA), vindos da zona rural de Coruripe. Ela foi uma das nove contempladas pelo Programa Um Computador por Aluno (PROUCA), desenvolvido pelo Ministério da Educação desde 2007 e que foi implantado em Alagoas em 2010 na 2ª fase do projeto com o objetivo de possibilitar a formação para a cidadania também com o uso das tecnologias.

O início do UCA no Escola São Rafael ocorreu em agosto de 2010 com a entrega de 416 laptops. O diretor da escola, Erithan Carlos Matias da Silva, na gestão há cerca de 10 anos, acredita e aposta na presença dos laptops como ferramenta significativa para a melhoria do ensino, permitindo o crescimento do aluno. “Os alunos ficam com a mente aberta. E posso afirmar que houve um crescimento no nível de aprendizagem dos alunos.” 

Ele conta que no início do projeto todos acolheram os laptops com grande expectativa, inclusive na esperança de uso da internet, o que nunca se configurou por questões da gestão do Proinfo. “Agora a prefeitura está colocando um ponto de internet e estamos comprando alguns roteadores. Mas a internet do projeto nunca funcionou, o que limitou as propostas”, reclama. 

Segundo o diretor, o professorado ficou apreensivo no começo do projeto, mas participaram das capacitações e hoje já conseguem adequar o uso dos laptops na realidade dos planos de aula. “O professor usa livremente no horário que é conveniente em acordo com a coordenação pedagógica. Não estabelecemos horários e disciplinas em que o professor tem que usar os laptops. Cada professor ajusta de acordo com sua dinâmica de sala de aula”.

Positivo e negativo

Para a coordenadora pedagógica da escola, Flávia Silva Rocha, o projeto tem seu lado positivo e seu lado negativo. O lado positivo está na disponibilização dos laptops para a escola e a família. “O UCA é um diferencial para a escola, e uma escola da zona rural onde ninguém imaginaria algo deste tipo. Entretanto, computador sem internet não é a mesma coisa e nisso o projeto foi falho até agora. Não tivemos suporte técnico e alguns alunos já terminaram seus estudos aqui na escola sem ver de fato o projeto se concretizar em sua plenitude”. 

Flávia destaca ainda que todos os professores participaram da formação, mas alguns ainda têm resistência a entrar no mundo da tecnologia. Quando entregam seus planos anuais e a proposta de um projeto didático, ela solicita que pensem em como usar os laptops no desenvolvimento das ações com os alunos.

Sobre o fato dos alunos levarem os laptops para casa, diretor e a coordenadora explicam que foi um trabalho importante reunir os pais para explicar o projeto e que os alunos iriam levar os laptops para a realização de estudos e atividades. 
Para Flávia Rocha, quando as crianças levam o laptop para casa, eles “mexem” e descobrem funcionalidades que os professores vão aprender com os alunos.

Impacto social 

Mãe de cinco filhos, nascida em Penedo e criada em Bom Sucesso, a dona de casa Raquel Souza da Silva Santos tem dois filhos em idade escolar e que estudam na escola São Rafael.

Para ela, que reside numa casa de taipa e planta macaxeira em frente a humilde moradia, seus filhos vão ter um futuro melhor por estarem aprendendo coisas que ela nunca aprendeu. “Eles trazem o laptop e ficam fazendo as tarefas. Fazem os slides da professora de português e me mostram. Mas eu não quero aprender não. Deixo pra eles esta coisa de computador”, afirma Dona Raquel.

Outro exemplo de como o UCA muda a vida dos envolvidos, o estudante Eduardo, do 5º ano vespertino frequenta a escola no horário da manhã para realizar simulados de matemática e português, preparando-se para a Prova Brasil, que avalia o desempenho das escolas a nível nacional. “Eu venho e fico aqui estudando. Tenho que acertar tudo. Eu tinha terminado e fui pra casa, mas voltei porque quero acertar tudo e to aqui fazendo de novo”. 

A coordenadora Flávia Rocha recorda que todos os dias vários alunos vêm para a escola em horário contrário para estudar. “Eles usam a biblioteca e o laboratório de informática para atividades orientadas ou livres. Podiam estar na rua ou na lavoura, a maioria seguindo a saga de seus pais, mas estão aqui. Talvez este seja um dos fatores da nota de nossa escola no Ideb”.

Segundo Fernando Pimentel, coordenador do UCA/Ufal, este é o diferencial do projeto, mas que não foi acolhido em sua totalidade, inclusive em Alagoas. “Os diretores têm receio de que os laptops quebrem ou que sejam roubados, mas com esta postura a gestão impossibilita o desenvolvimento de elementos sociais importantes, como a responsabilidade com o bem público. Há também o comprometimento de um dos objetivos do projeto, que não é alcançado: a inclusão social. Estamos fazendo um trabalho de ‘formiguinha’, visitando as escolas, conversando com os gestores e propondo uma formação continuada”. 

Avaliando o projeto, o coordenador do UCA na Ufal mostra-se preocupado com o futuro de um projeto tão grandioso e que está mudando a realidade das crianças e de suas famílias.

“O MEC não está sinalizando uma continuidade do projeto e as secretarias estaduais e municipais têm outras prioridades. Os gestores não conseguem vislumbrar os ganhos no processo educativo dos alunos e como um projeto deste porte contribui para o desenvolvimento da cidadania. Em vários municípios e no Estado os gestores não fizeram sua parte, que era cuidar da infraestrutura, e este é um elemento que compromete a continuidade do projeto”.

Ainda de acordo com Pimentel, o Governo Federal não pensou numa política de continuidade, e nem de manutenção dos equipamentos. De acordo com levantamento da Ufal, vários laptops não funcionam mais somente com a bateria, precisam estar conectados diretamente a fonte de energia.

“Em Alagoas o sinal de internet é precário. Como desenvolver algo assim? E agora com os tablets que serão distribuídos para alunos e professores do ensino médio, como será?”. 

Para Pimentel os professores são guerreiros e desenvolvem projetos dignos de reconhecimento com os laptops, mas afirma que muito mais poderia ser realizado.

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