Diário de bordo · Pesquisa cartográfica · RIEH · junho de 2026
Há uma pergunta que ficou suspensa nas últimas postagens desta série e que vários leitores me fizeram, de formas diferentes: mas o que vocês fizeram com o que encontraram? A pesquisa só observou, ou também interferiu?
A resposta curta é: a pesquisa sempre interfere. E é exatamente aí que as coisas ficam interessantes.
A resposta longa é esta postagem.
Existe uma ilusão muito conveniente no campo das ciências humanas: a do pesquisador neutro, aquele que chega ao campo com seus instrumentos, coleta dados, parte e deixa tudo exatamente como encontrou. A cartografia, desde suas bases filosóficas em Deleuze e Guattari, recusou essa ilusão com firmeza. Não porque seja impossível ser rigoroso. Mas porque o rigor, aqui, exige honestidade sobre o que realmente acontece quando uma pessoa entra em um território com um olhar comprometido, uma pergunta viva e a disposição de ser afetada.
Eduardo Passos, Virgínia Kastrup e Liliana Escóssia (a quem devo boa parte do instrumental teórico que uso nesta pesquisa) escrevem que "o pesquisador cartógrafo não está fora do campo que pesquisa: ele o habita, o perturba e é por ele perturbado". Essa perturbação mútua não é um problema a corrigir. Ela é, precisamente, o lugar onde o conhecimento se produz.
Quando chego a um Núcleo de Inovação para a Educação Híbrida, por exemplo, não chego como visitante neutro. Chego como pesquisador, professor, integrante de uma rede acadêmica que tem posições sobre educação híbrida. Cada pergunta que faço numa entrevista não apenas coleta uma resposta. Ela move algo no sujeito que responde. E esse sujeito, ao articular em palavras o que até então existia como prática tacitamente vivida, já não é exatamente o mesmo de antes.
Nesse sentido, há um episódio da pesquisa que ainda me afeta quando lembro. Durante uma das visitas a campo, ao final de uma entrevista longa com um professor que havia descrito sua prática com grande riqueza de detalhes, ele ficou em silêncio por um momento e disse algo que não estava no roteiro: "Eu nunca tinha parado pra pensar nisso tudo junto. Parece que eu aprendi hoje o que eu faço."
Não estava planejada nenhuma intervenção para aquele momento. Não havia protocolo de devolutiva, nenhum processo formativo previsto para aquela tarde. Havia apenas uma conversa, uma pergunta genuína, uma escuta comprometida, e o espaço que isso abriu para que aquele professor organizasse, em linguagem compartilhada, uma experiência que ele vivia de forma dispersa.
Isso é intervenção? Sim. Do tipo mais profundo que existe: aquele que não foi prescrito, mas que emergiu da relação.
Mas a via não é de sentido único. E é esse o ponto que mais me importa dizer. Se o pesquisador cartógrafo transforma os territórios que habita (mesmo sem querer, mesmo quando vai apenas "olhar"), o inverso é igualmente verdadeiro, igualmente inevitável e muito menos discutido.
Eu saí diferente de cada território visitado. Não como metáfora de sensibilidade. Literalmente diferente: com perguntas que não tinha antes, com certezas que deixaram de ser certezas, com conceitos que tiveram que ser revisitados porque o campo os recusou.
No Acre, o campo me ensinou que infraestrutura não é o mesmo que cultura pedagógica. Eu sabia isso no plano das ideias. Mas foi preciso sentar diante de um gestor que comprou equipamento do próprio bolso para manter as gravações funcionando durante a pandemia, e perceber que aquele gesto não cabia em nenhuma das categorias analíticas que eu havia construído antes da visita, para entender que o conceito precisava ser esticado, não o campo.
Isso é o que Virginia Kastrup chama de pouso: o momento em que o pesquisador para, deixa o campo falar mais alto do que a teoria, e resiste à tentação de fechar o que o campo está querendo manter aberto.
E aqui, prezado leitor, quero fazer aqui uma distinção que me parece importante, porque ela frequentemente gera confusão.
Dizer que a cartografia é sempre intervenção não é o mesmo que dizer que ela é pesquisa-ação no sentido mais restrito do termo. A pesquisa-ação, tal como Thiollent a sistematizou no Brasil, pressupõe um ciclo planejado: diagnóstico, planejamento da ação, implementação, avaliação. Há intencionalidade clara, há atores envolvidos na definição dos objetivos, há um acordo explícito de que a pesquisa vai produzir mudança.
A cartografia não exige esse acordo prévio. A intervenção que ela provoca pode ser silenciosa, lateral, não prevista por nenhuma das partes. E é exatamente por isso que ela pode ser mais profunda.
John Law, no seu After Method, argumenta que os métodos de pesquisa não apenas descrevem a realidade: eles a performam. Ao mapear os territórios da RIEH, não estamos apenas representando uma rede que já existe; estamos participando da construção do que essa rede acredita que é. O mapa que produzimos devolve aos sujeitos do campo uma imagem deles mesmos que eles não tinham. E essa imagem age.
Tim Ingold, por sua vez, faz uma distinção que considero central para pensar essa questão: a diferença entre transporte e wayfaring. Transportar-se é ir de um ponto a outro sem ser transformado pelo percurso. Fazer caminho (wayfaring) é deixar que o percurso te constitua enquanto você o constitui. A cartografia é, por natureza, wayfaring. O pesquisador que cartografa não pode chegar ao destino intacto.
Fica então um aprendizado desta pesquisa cartográfica que estamos realizando: o que afeta o território afeta também quem o cartografa.
Há um trecho de Suely Rolnik que carrego desde o início desta pesquisa, e que só fui compreender de verdade depois das visitas a campo. Ela escreve que "o cartógrafo é aquele que se deixa levar pelos movimentos do desejo, acompanhando seus fluxos, suas intensidades, sem medo de se perder". O que parecia uma metáfora poética, acabou sendo uma descrição bastante precisa do que acontece quando se entra num território com escuta verdadeira.
Perder-se, nesse contexto, não é extraviar o rigor. É estar disposto a que o mapa que você imaginava fazer não seja o mapa que o campo vai exigir. É admitir que a hipótese de partida pode ser derrubada não por um dado contraditório, mas por um silêncio que não estava previsto, por um gesto que não cabia na grelha analítica, por uma fala que apontou na direção exatamente oposta à que a teoria sugeria.
Em cada um dos cinco territórios que visitamos até o momento, saímos com algo que não levamos para o campo. Não apenas dados novos. Uma sensibilidade diferente. Uma pergunta que reconfigurou o quadro. Um afetamento que ainda está sendo processado e que, honestamente, ainda não tem nome definitivo.
Isso tudo, porém, traz uma responsabilidade que não posso deixar de nomear. Se a presença do pesquisador já é uma forma de intervir, se a pergunta que faço numa entrevista já move algo no sujeito que responde, se o mapa que devolvo ao campo já altera a forma como aquele território se percebe, então a postura ética não pode ser a da neutralidade fingida. Ela precisa ser a da responsabilidade declarada.
A cartografia, como método, nos convida a assumir que não somos neutros e a agir com cuidado a partir disso. Não para diminuir a intervenção, mas para torná-la mais consciente, mais honesta, mais comprometida com os sujeitos do campo.
Isso significa, na prática desta pesquisa, devolver ao campo o que o campo nos deu. Não apenas em forma de relatório técnico depositado em repositório acadêmico. Mas em conversas, em encontros de socialização, em devolutivas que criem, elas mesmas, novas condições de reflexão. A intervenção, então, se fecha num ciclo não planejado desde o início, mas construído ao longo do percurso, a partir do que o próprio campo foi pedindo.
No final, o que a cartografia nos ensina sobre intervenção é isso: não existe mapa inocente. Todo mapa é uma tomada de posição. Todo mapa inclui e exclui. Todo mapa, ao ser mostrado a quem vive o território mapeado, provoca algo: reconhecimento, estranhamento, disputa, descoberta.
E todo cartógrafo que se leva a sério precisa estar disposto a ser, também, território. Precisa estar disponível para ser afetado, deslocado, surpreendido pelo que o campo tem a dizer sobre as próprias categorias com que chegamos a ele.
A intervenção que o mapa provoca, portanto, não começa quando a pesquisa termina e os resultados são apresentados. Ela começa no primeiro contato, na primeira pergunta, no primeiro olhar que um sujeito do campo lança para o pesquisador e percebe: alguém veio aqui querendo entender.
Esse querer entender já é uma forma de encontro. E o encontro genuíno, como nos ensina Martin Buber, é sempre transformador, não porque uma das partes age sobre a outra, mas porque ambas se constituem na relação. Na sua distinção entre as atitudes Eu-Isso e Eu-Tu, Buber nos lembra que só há encontro de verdade quando o outro não é tratado como objeto de análise, mas como sujeito com quem nos relacionamos. A cartografia, quando vivida com honestidade, é isso: uma relação Eu-Tu com o território. E relações Eu-Tu deixam marcas nos dois lados.
O mapa segue aberto. E a intervenção que ele provoca em nós e nos territórios ainda está acontecendo.
Seguimos caminhando.
Referências:
BUBER, Martin. Eu e Tu. São Paulo: Centauro, 2001.
DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia. São Paulo: Editora 34, 1995. v. 1.
INGOLD, Tim. Being Alive: essays on movement, knowledge and description. London: Routledge, 2011.
KASTRUP, Virginia. A invenção de si e do mundo: uma introdução do tempo e do coletivo no estudo da cognição. Psicologia: Reflexão e Crítica, v. 12, n. 2, 1999.
LAW, John. After Method: mess in social science research. London: Routledge, 2004.
PASSOS, Eduardo; KASTRUP, Virgínia; ESCÓSSIA, Liliana (Org.). Pistas do método da cartografia: pesquisa-intervenção e produção de subjetividade. Porto Alegre: Sulina, 2009.
ROLNIK, Suely. Cartografia sentimental: transformações contemporâneas do desejo. Porto Alegre: Sulina; Editora da UFRGS, 2006.
THIOLLENT, Michel. Metodologia da pesquisa-ação. São Paulo: Cortez, 1985.
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