Diário de bordo – 12 de maio de 2026: quando o mapa começa a falar por si mesmo
E vamos a mais um registro do desenvolvimento da pesquisa...
Hoje estou vivenciando um momento interessante da pesquisa. Exatamente quando se olha para o material produzido e se percebe que chegou num ponto de inflexão. Não é o fim de nada. Mas é claramente um depois que já não é mais o antes.
Neste início de semana, depois de semanas de trabalho coletivo de construção do mapa cartográfico da pesquisa com a Rede de Inovação para a Educação Híbrida (Rieh), chegou a hora de fazer algo diferente: parar de apenas inserir evidências no mapa e começar a ouvir o que ele nos diz. Preparar uma síntese dos dados parciais para apresentar à coordenação da Rede. Nomear o que o campo já revelou.
E foi esse exercício — traduzir o mapa em linguagem analítica e que começamos como grupo desde a última quinta-feira — que me fez perceber a extensão do que já temos nas mãos.
Até o momento o mapa tem três territórios. E cada um fala de um jeito diferente.
Quem acompanha este blog sabe que nossa cartografia organiza-se até o momento em torno de três territórios híbridos: o Observatório da RIEH, habitado por pesquisadores, professores, gestores e alunos, e os dois Núcleos de Inovação para Educação Híbrida — um em Maceió, outro em Arapiraca — com seus próprios sujeitos, suas próprias tensões, suas próprias potências.
O que o mapa revela não é simples. É uma rede viva, com forças que circulam em múltiplas direções: as setas verdes da potência, as vermelhas da tensão, as azuis pontilhadas das possibilidades ainda em aberto. Olhar para ele é como olhar para um organismo em movimento.
E o que esse organismo nos diz, neste momento da pesquisa, quando organizamos os dados em quatro grandes categorias analíticas?
Sobre a Rede: ela existe. Tem estrutura, tem sujeitos, tem intencionalidade. Mas a articulação entre os territórios ainda é frágil. O registro do que se produz é limitado. E há uma tensão persistente entre a tendência de replicar práticas já conhecidas e os usos criativos e inesperados que os sujeitos fazem dos seus próprios espaços — como aquele nó que nos chamou a atenção ao vermos núcleos sendo usados como estúdios de gravação. Isso não estava previsto. E é exatamente por isso que é interessante. A linha de fuga existe. Ela pulsa.
Sobre a Formação: é, sem dúvida, a categoria mais tensionada do mapa. As formações oferecidas são percebidas como insuficientes. Mais do que isso: a própria concepção de educação híbrida ainda não encontrou um marco compartilhado dentro da rede. O que é, afinal, hibridismo para este conjunto de sujeitos que habitam esses territórios? A pergunta ainda está em disputa — e isso é, ao mesmo tempo, o maior problema e a maior abertura que a cartografia nos apresenta. Conceito em disputa é conceito vivo.
Sobre a Política Educacional: o mapa nos mostra uma tensão estrutural entre o que a política intenciona e o que ela consegue materializar nos territórios. A baixa integração com as secretarias estaduais, o não cumprimento integral das contrapartidas, a fragmentação das práticas entre os núcleos: são sinais de que a Rieh ainda está em processo de se consolidar como política — e não apenas como programa. Há uma diferença importante entre os dois.
Sobre a Infraestrutura: a ausência de conectividade em partes dos territórios não é um detalhe técnico. É uma contradição estrutural numa política que se propõe a ser de educação híbrida. O mapa nos diz isso com clareza. E ao mesmo tempo nos mostra que os sujeitos, quando não têm o que precisam, inventam. Adaptam. Constroem saídas próprias. Isso também é dado. E precisa ser reconhecido como tal.
Preparar um sumário executivo a partir do mapa — um documento que pudesse ser apresentado à coordenação da Rieh com os dados parciais organizados nessas quatro categorias — foi, ele mesmo, um ato analítico. Porque não é possível traduzir o mapa em linguagem descritiva sem antes fazer escolhas interpretativas. Sem decidir o que é nó central, o que é linha de tensão, o que é potência ainda não realizada. E essas escolhas revelam o pesquisador tanto quanto revelam o campo.
Percebi, nesse processo, que o mapa já nos diz mais do que tínhamos consciência. Há consistência nas evidências. Há recorrências. Há padrões que não foram impostos ao campo e que foram ensinados por ele. E há perguntas que só se tornaram possíveis porque chegamos até aqui.
Kastrup nos lembra que a atenção cartográfica envolve rastreio, toque, pouso e reconhecimento atento. Hoje foi um dia de pouso. Um dia em que algo pediu pausa, exigiu que ficássemos um tempo mais longo sobre o que o campo produziu — não para fechar, mas para ver com mais clareza o que ainda está aberto.
O mapa não está terminado. Nunca estará, enquanto a pesquisa estiver viva. Mas chegou num ponto em que ele já pode ser lido. Já tem linhas com nomes. Já tem territórios com contornos.
E isso, para um cartógrafo, é um momento de gratidão.
Seguimos caminhando... e com novidades. Esta semana temos dois pesquisadores (Fernando Neto e Jéssica Barbosa) indo conhecer e visitar um NIEH em Aracaju, e eu estarei embarcando para Rio Branco também com esta mesma finalidade... artografando e ampliando a pesquisa.
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