Esta semana tem sido diferente. Estou desenvolvendo uma atividade docente na Universidade Estadual de Santa Cruz; e enquanto caminho pelos corredores, enquanto escuto as falas dos de colegas docentes e de tantas outras pessoas, enquanto me vejo no meio daquele campo, percebo que algo vai mudando em mim. Não sei se é o ritmo diferente, o ambiente que não é o meu de costume, ou simplesmente o efeito de ser lançado a um lugar onde tenho que ao mesmo tempo ensinar e aprender. O que sei é que esta semana tem me convocado a pensar. E quando começo a pensar, começo a registrar.
O que me veio com mais força foi uma questão que carrego há algum tempo na pesquisa cartográfica que estou desenvolvendo: o que é, afinal, intervir?
Há uma imagem muito corrente de intervenção que me incomoda: a de alguém de fora (um pesquisador, um extensionista, um especialista) que chega até um grupo social ou comunidade e realiza algo sobre eles. Nessa imagem, há um sujeito ativo e um grupo passivo. Há um portador de saberes e uma comunidade que os recebe. Há uma direção clara: de dentro para fora, de quem sabe para quem aprende.
Essa concepção me parece ao mesmo tempo limitada e limitante. Limitada porque não dá conta do que de fato acontece quando nos inserimos em um campo, seja de pesquisa, seja de extensão. Limitante porque aprisiona tanto o pesquisador quanto os sujeitos com quem pesquisa em papéis que empobreceram a relação antes mesmo de ela começar.
E aqui entra algo que esta semana na UESC me fez sentir de um jeito bastante concreto.
Eu não cheguei aqui para simplesmente transmitir conteúdo, transmitir meus "saberes". Eu cheguei e fui afetado. Fui afetado pelas falas, pelas perguntas, pelas histórias que cada pessoa traz consigo, pelos silêncios que às vezes dizem mais do que as palavras. E ao ser afetado, algo em mim se move: minhas práticas são colocadas em questão, minha maneira de pensar a pesquisa se desloca, minha própria trajetória como pesquisador ganha novos contornos.
A pesquisa cartográfica, tal como a venho compreendendo, não opera com a lógica do pesquisador-cirurgião que entra no campo, faz sua intervenção asséptica e retira-se intacto. Ao contrário. Ela pressupõe que há uma implicação do pesquisador no campo, e que essa implicação é constitutiva do próprio processo de produção de conhecimento.
Intervir, nesse sentido, não é um gesto unilateral. É uma relação. É um encontro que transforma os dois lados, e às vezes mais de dois. Quando participo de uma atividade docente, de uma roda de conversa, de um processo de extensão, não há um momento "antes" da intervenção e um momento "depois". Estou sempre já dentro do processo. Minha presença já é uma forma de intervir, e o campo intervém em mim na mesma medida.
Isso me leva a repensar também a noção de extensão universitária. Quando a extensão é concebida como levar algo para alguém, ela reproduz exatamente a assimetria que mencionei: há quem dá e quem recebe. Há um fluxo que vai em uma única direção. Mas o que tenho vivido (e o que a cartografia me ajuda a nomear) é um processo bem mais poroso, bem mais vivo. Há aprendizados que só surgem quando estou no campo. Há perguntas que só consigo formular porque fui afetado por aqueles com quem caminho.
Na cartografia o pesquisador não é um observador externo, mas um participante do processo que ele mesmo estuda. Essa semana na UESC me devolve essa ideia com toda a sua força prática, cotidiana, quase corporal.
Ser afetado não é fraqueza metodológica. É condição de possibilidade de uma pesquisa que leva a sério a complexidade dos processos humanos. E intervir, no sentido mais rico do termo, é exatamente isso: estar disposto a ser transformado pelo campo ao mesmo tempo em que se transforma com ele.
Anoto isso aqui porque o diário de pesquisa é também esse lugar: um espaço onde o campo continua trabalhando em mim depois que saio dele. Por hoje é isso.
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