domingo, 5 de abril de 2026

Parar sem parar: o momento em que o pesquisador precisa se encontrar no mapa

Há momentos na pesquisa em que o campo não para — mas o pesquisador precisa, ainda que brevemente, pausar dentro do movimento. Não para sair da rota. Para saber onde está nela.

Escrevo isso de dentro do Observatório da RIEH, num daqueles dias em que os dados continuam chegando, as redes seguem enviando seus relatórios, as demandas institucionais não esperam, e ainda assim eu precisei criar, para mim mesmo, um momento de pausa reflexiva. Não uma pausa que interrompe a pesquisa. Uma pausa que é, ela mesma, parte do método.


Quem trabalha com cartografia sabe que esse é um dos movimentos mais difíceis de sustentar: o de parar dentro do fluxo. De respirar fundo enquanto o território segue se movendo ao redor. Passos e Barros nos ensinaram que o caminhar traça as metas no próprio percurso; mas ninguém disse que esse caminhar é sempre linear, sempre confiante, sempre sem hesitação. Às vezes o cartógrafo precisa levantar os olhos do mapa que está desenhando e perguntar: onde estou eu, nisto tudo?

Esta pesquisa me coloca numa posição que tenho precisado nomear com mais cuidado. Sou pesquisador da RIEH, mas também integro seu núcleo pedagógico. Analiso uma política pública da qual faço parte. Isso não é um problema a ser resolvido — na cartografia, essa implicação é constitutiva do método. Mas ela exige que eu a reconheça, que a nomeie, que a incorpore como dado reflexivo e não como ruído a ser eliminado.

E foi exatamente isso que me fez parar — sem parar — neste momento da investigação.

Percebi que estava acumulando dados com uma velocidade que não estava sendo acompanhada pela reflexão necessária. O Observatório produz informações continuamente: indicadores das redes, documentos das secretarias, registros de formação, relatos de gestores e docentes. A tentação é seguir capturando, organizando, tabulando. O Atlas.ti aberto, o diário de campo com entradas rápidas, os mapas conceituais se multiplicando. Tudo parecendo muito produtivo — e sendo, de fato. Mas eu havia me distanciado, sem perceber, de uma pergunta que a cartografia nunca deixa ser esquecida: o que tudo isso está produzindo em mim, como pesquisador? O que o campo está fazendo comigo, além do que eu estou fazendo com ele?

A cartografia não pergunta apenas o que o pesquisador encontra no campo. Ela pergunta como o campo transforma o pesquisador. E essa pergunta exige honestidade — não como virtude pessoal, mas como postura metodológica.

Então fiz o que o método pede, mesmo quando o calendário resiste: escrevi. Não para o relatório, não para o artigo que está em construção. Escrevi para o diário. Páginas sem forma certa, sem pretensão de análise. Deixei emergir as tensões que estavam acumuladas: a tensão entre o rigor quantitativo que a abordagem mista exige e a abertura rizomática que a cartografia requer; a tensão entre ser pesquisador implicado e manter a postura reflexiva; a tensão entre o tempo institucional da bolsa e o tempo processual da investigação cartográfica, que não obedece a cronogramas.

E o que encontrei nessa escrita foi, curiosamente, uma reorientação de rotas. Não uma ruptura. Não um abandono do que havia sido planejado. Mas um ajuste fino no modo como estou olhando para os dados das redes, percebendo que algumas categorias que havia antecipado no projeto estão sendo tensionadas pelo campo, e que novas questões estão emergindo nas margens dos documentos, nos silêncios dos relatos, nas contradições entre o que as redes declaram fazer e o que os dados revelam.

Isso é cartografar. Não é seguir um protocolo até o fim. É estar suficientemente atento para reconhecer quando o mapa precisa ser refeito — sem jogar fora o que já foi traçado, mas sem se apegar a ele como se fosse a realidade e não apenas uma representação provisória dela.

Parar sem parar é, talvez, a habilidade mais difícil que este método exige. É estar em movimento e em contemplação ao mesmo tempo. É ser rigoroso e poroso, sistemático e surpreendível para usar uma formulação que escrevi aqui neste blog há algumas semanas e que continua me acompanhando no percurso.

O campo da RIEH segue vivo, dinâmico, pleno de forças que ainda não sei nomear completamente. E é exatamente aí que a pesquisa está: não em respostas consolidadas, mas nesse espaço fértil entre o que já foi mapeado e o que ainda está por emergir.

Continuo caminhando. Com os olhos mais abertos do que antes.

O pesquisador-cartógrafo e a arte de sentir o caminho


Sensibilidade, atenção e o constante replanejamento das rotas na pesquisa cartográfica.


Cartografar não é apenas traçar linhas sobre um mapa já dado. É deixar-se afetar pelo território — percebê-lo em movimento, habitá-lo com atenção, e estar sempre disposto a redesenhar as rotas quando o chão sob os pés muda.

Quando adotamos a cartografia como método de pesquisa, aceitamos um pacto com a incerteza. Diferente das metodologias que buscam confirmar hipóteses previamente fixadas, a pesquisa cartográfica, tal como proposta por Gilles Deleuze e Félix Guattari e amplamente desenvolvida no campo educacional por pesquisadores como Virgínia Kastrup e Eduardo Passos, nos convida a acompanhar processos, não a representar estados de coisas já consolidados.

Isso exige do pesquisador uma qualidade que vai além da competência técnica: a sensibilidade. E isso estou vivendo nos últimos dias, desde o momento de qualificação de uma tese que oriento, e que está intimamente relacionada com a minha pesquisa sobre a Rede de Inovação para a Educação Híbrida (RIEH).

Sensibilidade como postura metodológica

Falar em sensibilidade no contexto da pesquisa pode soar, a princípio, subjetivista ou pouco rigoroso. Mas é justamente o contrário. Ser sensível, no sentido cartográfico, significa manter uma atenção flutuante e ao mesmo tempo concentrada, estar aberto ao que emerge no campo, aos gestos inesperados, às falas que parecem laterais, às tensões que surgem entre o que foi planejado e o que está acontecendo.

Kastrup nos lembra que a atenção do cartógrafo não é seletiva no sentido restritivo do termo. Ela não filtra o campo em busca apenas do que confirma uma teoria preestabelecida. Ao contrário, ela rastreia, pousa, reconhece e, sobretudo, toca, deixa-se tocar pelo que o território tem a dizer.

O cartógrafo não sabe de antemão o que vai encontrar. E é exatamente nesse não-saber produtivo que reside a força do método.

No contexto da pesquisa em educação, essa sensibilidade se manifesta de formas muito concretas: na escuta que vai além das palavras dos sujeitos, na observação dos silêncios de uma sala de aula, nas micropolíticas que atravessam as práticas pedagógicas, nos encontros fortuitos com documentos, com memórias, com afetos que emergem no campo.

E no caso da pesquisa que estamos conduzindo significa agora ir a outros espaços... buscando algo que temos como hipótese, mas que a concretude dos espaços pode nos revelar novidades.

A pesquisa como território em movimento

Uma das imagens mais potentes que a cartografia nos oferece é a de que o território não preexiste ao mapa. Ele é produzido no próprio ato de cartografar. Aplicado à pesquisa, isso significa que o objeto de investigação não está lá, esperando ser descoberto. Ele se constitui no encontro entre o pesquisador, os sujeitos, os contextos e as perguntas que vão se transformando ao longo do caminho.

Por isso, o planejamento em pesquisa cartográfica tem uma natureza peculiar: ele não é um ponto de partida que se cumpre linearmente até o ponto de chegada. Ele é um mapa provisório, um instrumento de orientação que precisa ser constantemente revisto à luz do que o campo vai revelando.

Isso não significa ausência de rigor. Significa um rigor de outro tipo: o rigor de quem está disposto a rever, a questionar, a reformular. Um rigor processual, encarnado na trajetória, não aprisionado em protocolos fechados.

E aqui cabe uma reflexão-alerta: um dos maiores equívocos que pesquisadores iniciantes cometem ao trabalhar com cartografia é interpretar a necessidade de replanejamento como sinal de insuficiência metodológica. Como se desviar da rota original fosse um problema a ser corrigido.

É preciso inverter essa lógica. Na pesquisa cartográfica, a necessidade de replanejar é, muitas vezes, o sinal mais precioso de que o campo está falando, de que algo importante está acontecendo que não estava previsto no projeto inicial. Ignorar esse sinal em nome da fidelidade ao protocolo original seria uma forma de surdez metodológica.

O pesquisador-cartógrafo aprende, portanto, a habitar esse desconforto produtivo. Ele carrega consigo um projeto, mas mantém as mãos abertas para reescrevê-lo quando o território exige. Ele sabe que os melhores achados de uma pesquisa frequentemente aparecem nas margens, nos lugares que não estavam no roteiro. Ou seja... replanejar rotas não é abandonar o método. É praticá-lo com honestidade e com fidelidade ao que o campo tem a ensinar.

Implicações para a prática investigativa em educação

Para quem pesquisa no campo educacional, a cartografia coloca algumas exigências práticas que valem ser nomeadas. Primeiro, a necessidade de um diário de campo denso; não apenas como registro factual, mas como espaço de elaboração, de escrita de si e da experiência. O diário é, ele mesmo, um instrumento cartográfico. E aqui está este blog como um dos diários de campo.

Segundo, a necessidade de revisões periódicas e intencionais do projeto de pesquisa. Não como burocracia, mas como prática reflexiva: o que mudou? O que o campo está me dizendo que eu não havia antecipado? Que novas perguntas emergiram? Que caminhos se fecharam e que outros se abriram?

Terceiro, e talvez mais fundamentalmente, a necessidade de cuidar da própria sensibilidade como pesquisador. Isso implica atenção ao corpo, ao cansaço, às resistências internas e externas que surgem no percurso. O cartógrafo está em campo, e o campo o afeta, o transforma, o desloca. Reconhecer essa dimensão não é fraqueza metodológica. É precisão.

A pesquisa cartográfica nos convida a uma relação mais viva com o conhecimento, mais honesta com a complexidade dos processos que investigamos, especialmente quando esses processos se passam no interior de escolas, de relações pedagógicas, de trajetórias formativas. Ela nos pede que sejamos, ao mesmo tempo, rigorosos e porosos, sistemáticos e surpreendíveis.

Cartografar é, afinal, uma forma de estar no mundo da pesquisa com os sentidos abertos, sabendo que o mapa nunca é o território, mas que sem ele, nos perdemos. E que replanejá-lo, sempre que necessário, é o gesto mais corajoso e mais honesto que um pesquisador pode fazer.